Dial P for Popcorn: Dezembro 2012

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Estabelecer uma conexão - último artigo de 2012!




Eis que o ano chega ao final. Um ano muito positivo, sem dúvida, mas que pelo menos a nível do blogue ficou muito aquém. A desculpa que o trabalho não deixou fazer mais, apesar de verdadeira, custa-me. Custa-me porque quando nos propusemos a este projecto, sempre achámos que teríamos tempo. E custou-me imenso ver o nosso blogue em suporte de vida até Setembro. Enfim. Tempos melhores virão. Que 2013 nos traga, sobretudo, tempo. E bons filmes. Isso sim é sempre importante.


Queremos aproveitar para agradecer a todos quantos contactaram, de uma forma ou outra, com este blogue durante 2012 e nos ajudaram a crescer. E queremos sobretudo desejar bom ano novo e boas festas para todos os leitores, colaboradores e amigos do Dial P For Popcorn!

Há ainda que agradecer uma vez mais ao Miguel Reis e ao José Soares por mais um magnífica cerimónia dos TCN Blog Awards e por mais um troféu para o estaminé. Bem, não foi bem para o estaminé mas foi para o staff, portanto é quase a mesma coisa. Consequentemente, agradeço ao Gustavo por ter aceite o desafio proposto pelo João de se juntar a nós. E pela resposta positiva com que foi recebido, agradeço a todos os nossos leitores. Os comentários nem sempre surgem (na blogosfera portuguesa, uma pessoa já está habituada; se não há passatempos e não há críticas a antestreias, não há comentários) mas o número de visualizações está lá.


Olhando de relance para a minha lista de filmes vistos em 2012, posso dizer que o balanço não está mau. Ao contrário de outros anos, não me apareceu ainda um filme que me encha as medidas como "Beginners" ou "The Social Network" haviam feito recentemente. Também contrariamente a anos anteriores, o ano cinematográfico de 2012 foi bem mais forte. Muitos filmes com notas elevadas cá no DPFP, de diferentes épocas do ano. Poucas desilusões (mas as que foram, doeram). Várias surpresas. 



O meu ano cinematográfico de 2012 resume-se este ano a uma só coisa: estabelecer uma conexão. É isso que todos os filmes que admirei este ano fizeram. E mesmo aqueles de que não gostei mesmo têm partes que considero essenciais para explicar o que 2012 teve de especial para mim. 2012 foi o ano que encerrou a trilogia de Christopher Nolan, com "The Dark Knight Rises", com o filme mais lamechas de toda a franchise. Curiosa a opção do realizador britânico em querer encerrar aquela que até agora tinha sido a trilogia mais cerebral, mais asexual e mais negra da história do cinema contemporâneo com o seu filme mais atípico até ao momento, que basicamente vai contra todos os seus instintos enquanto realizador. Foi como se quisesse emparelhar com "The Avengers", o filme mais sério e dedicado da Marvel. Tinha que ser Joss Whedon, claro.


A banda sonora de "Cloud Atlas" (assumo que por esta altura já terão percebido que é a música que acompanha este artigo) sobrevive ao restante filme. É qualquer coisa de extraordinária. Digna de ser celebrada. Um feito especial. O mesmo digo dos efeitos especiais de "Prometheus", da química de Emma Stone e Andrew Garfield em "The Amazing Spiderman", da interpretação para todo o sempre de Liam Neeson em "The Grey" ou de Denis Lavant em "Holy Motors", do elenco de "Argo" (e quem diz esse diz o de "Lincoln", o de "Moonrise Kingdom" ou de "Bachelorette" - sim, o de "Bachelorette"!). Filmes que, independentemente do quanto eu os aprecio, não existiriam da mesma forma sem isto.



Refrescante é também ver actores de idade avançada com filmes que os respeitam e, mais que isso, lhes dão que fazer. Do enorme e surpreendente elenco de "Best Exotic Marigold Hotel" ao pas de deux de Meryl e Tommy Lee em "Hope Springs", já para não falar dos brilhantes Riva e Trintignant em "Amour". Prova que o talento não tem nada a ver com a idade. A comprovar isso também: quão fantástico é um filme tão peculiar e original como "The Perks of Being a Wallflower" ter tido o sucesso que teve, tendo em conta o tópico da juventude já ter sido mais que gasto? E que bom é ver também "Pitch Perfect" juntamente com ele? 


E já que falamos em filmes inesperadamente originais, como é possível não festejar o sucesso de "Beasts of the Southern Wild"? E de "Holy Motors"? Que enormes realizadores, que vão a jogo com all in, não importando o grande risco que correm. Pegando em riscos elevados... Num ano de crise profunda e de saturação, um ano que praticamente garantiu a insolvência do cinema português, Portugal consegue mais dois filmes com visibilidade internacional: "Sangue do Meu Sangue" foi candidato a nomeação aos Óscares, não a conseguiu mas o objectivo - ser visto e adorado por mais gente - foi conseguido. A história do ano, contudo, foi a de "Tabu". Aparecer em tanta lista de melhor do ano é obra. Miguel Gomes, a minha mais profunda vénia. É um filme especial, este. Espero que os anos o tratem bem. A estes dois junto a obra majestosa de Vicente Alves do Ó, "Florbela". Ó Dalila, foste tudo o que podia ter pedido e mais. Que monumento, essa performance.



A animação também voltou em grande. O ano abriu morno com "Brave" mas até ao fim trouxe ainda "Paranorman", "Frankenweenie" (o Burton mais inspirado em quinze anos!) e "Wreck-it Ralph", em que a Disney finalmente aprendeu a dançar ao som da Pixar. É bom ver que o subsidiário da Disney já serviu para empolgar e trazer de volta inspiração aos escritórios com mofo dos herdeiros do tio Walt. Já tinha feito o mesmo com a Dreamworks em anos recentes. 


Hora de agradecer aos muitos outros realizadores que deixaram marca no ano. Muitos agradecimentos para Sarah Polley ("Take this Waltz") e a Joe Wright ("Anna Karenina") por nunca se desencorajarem de fazer filmes diferentes. O mesmo digo a David Wain ("Wanderlust"), a Judd Apatow ("This is 40") por tentarem sempre mais que a simples comédia. E palmas aos velhos mestres Oliver Stone ("Savages"), David Cronenberg ("Cosmopolis") e Ridley Scott ("Prometheus") por tentarem não enferrujar - nem sempre resultou, caríssimos, mais gostei da tentativa.

Bem-vindo de volta, Sam Mendes ("Skyfall"). É bom saber que a criatividade ainda aí mora. Olá, Soderbergh ("Magic Mike"). Espero que a reforma espere mais alguns anos. E não me posso esquecer do sr. Spielberg e da superestrela - agora superrealizador - Ben Affleck. Onde vão aqueles lindos tempos da Jenny from the Block. Se com "The Town" me surpreendeste, com este "Argo" arrumaste-me para canto. Onde foste desencantar esse talento?

E Steven. Depois de "War Horse", veio o "Lincoln". Ainda não estamos lá - não me esqueço de "Crystal Skull" e de "War of the Worlds" - mas o caminho para a tua redenção comigo está mais pequeno. Olha, aproveita e dá uns conselhos ao Woody ("To Rome With Love"), que ele está bem necessitado. E Ang Lee. Uff. Obrigado por seres único. "Life of Pi" junta-se a "Brokeback Mountain" no grupo dos  filmes mais incompreendidos do nosso século. Ame-se ou odeie-se (e há muitos que odeiam, infelizmente), Ang Lee é o realizador mais talentoso da sua geração.


Agora, umas palavras aos actores. Obrigado Léa e Marion, deusas francesas, vocês terão sempre um lugar no coração pela vossa irreverência. Meryl, tu e eu já sabes, é para sempre. Mais um ano em que calas quem não te suporta. O teu génio não tem par. Nicole, palmas para ti também. Por ires a sítios que a maioria dos actores teme sequer chegar perto. Riva e Trintignant, que assombro. Ao ver-vos actuar a minha vida avançou cinquenta anos e fizeram-me imaginar e, pior que isso, trouxeram-me de volta a mim da forma mais horrenda possível. Mas é assim a vida e vocês cumpriram o vosso papel. Palmas para a Keira e para a Kirsten. Nunca mudem. Mandem os críticos levar num sítio que eu e vocês sabemos.

Kristen e Robert, agora que aquela franquia acabou, é sempre fascinante ver que sabem, de facto, actuar. Continuem. Emma, o mesmo digo de ti.

Day-Lewis, Day-Lewis. Não há palavras para descrever a tua arte. Obrigado por trazeres a Sally Field e o Tommy Lee Jones ao teu nível. É deste tipo de colaborações que eu gosto. 


Amy Adams. Charlize Theron. Javier Bardem. Michael Fassbender. Garrett Hedlund. Matthias Schoenaerts. Diane Kruger. Jude Law. Bryan Cranston. Rachel Weisz. O ano não foi muito generoso convosco, dada a qualidade do vosso trabalho. O meu muito obrigado de qualquer forma e um desejo que 2013 seja o vosso ano. Rosemarie deWitt, Emily Blunt, um aviso, depois deste 2012: o vosso talento merece tanto mais! 

Foi este o meu 2012. Um ano estranho. Um ano diferente na minha vida, que deixou marca no cinema que me marcou. "Amour". "Life of Pi". "Beasts of the Southern Wild". "Argo". "Holy Motors". "Moonrise Kingdom". "Farewell My Queen". "Tabu". "Sister". "Take Shelter". "Margaret". "Shame". "Weekend". "Elena". Religião, filosofia, fé. O amor, puro e simples. A inevitabilidade da morte e a sobrevivência. O quão sozinhos estamos realmente no mundo. O triunfo da condição humana. A procura de algo mais. A comunhão entre as pessoas. Temas universais que identifico transversalmente nos filmes que mais amo do ano. 


A ver o que o ano novo me traz. Se possível, mais optimismo. Mais felicidade e alegria nos meus filmes, se puder ser. Menos depressão e solidão, se bem que esses são sempre os melhores temas, porque o drama se faz da catarse e a catarse só vem dos problemas sérios. Bem, pensando melhor: que 2013 venha. E venha carregado de filmes, de cenas, de momentos, de melodias, de interpretações que eu possa ardentemente abraçar e apreciar, vezes sem conta. Que 2013 seja um ano memorável. 

Feliz Ano Novo.

Jorge Rodrigues




A Angústia do Blogger Cinéfilo conta com DPFP na 2ª edição



Pois é, meus caros, a grande iniciativa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty, do blogue CINEdrio do Luís Mendonça, está de volta para uma segunda edição e, depois de um período de candidaturas e transferências feroz, eis que as equipas se encontram em regime de pré-época antes do início deste belo torneio interblogues.


Nesta segunda edição temos várias caras novas, a começar pelo DPFP, que este ano também entra no certame. Juntamente com a equipa da casa e a do DPFP, temos ainda equipas do Rick's Cinema, do Keyzer Soze's Place, do O Narrador Subjectivo, do A Sombra do Elefante, do Caminho Largo e do Shut Up and Watch the Movies. Podem consultar todas as equipas - bem como o regulamento da competição -  AQUI.

Por cá, a DPFP FC espera contar com o vosso apoio e votos para, com jeitinho, chegar à fase final do torneio e, quem sabe, trazê-lo para terras de Coimbra. Depois da Académica ganhar a Taça de Portugal, por que não sonhar? 

Voltaremos na próxima semana com mais novidades sobre o torneio e, sobretudo, com a lista de confrontos dos oitavos-de-final (sorteio na próxima sexta-feira) e aí faremos uma análise mais detalhada à "concorrência".

Abaixo vos deixo com a constituição da DPFP FC:


Treinador: Luis Buñuel. Não podia ser outro. Para mim, não há melhor treinador que este. Se Mourinho fosse realizador, seria, para mim, este senhor. Provocador e prevaricador por natureza, célebre por não temer criticar a sociedade e a política do seu tempo, nunca se sabe que decisão tomará a seguir. Para muitos um génio, para outros um louco. Controverso e surreal.  Consistente. Completo. Impressionante.

Guarda-Redes: Steven Soderbergh. Uma escolha pouco consensual, que teve um percurso muito auspicioso no início de carreira mas que conseguida a aclamação crítica se deixou relaxar. Apesar de falhar de vez em quando, é fiável e equilibrado, cumprindo sempre. Com uma aposta firme nele, pode ser grande de novo. O meu Van der Sar. 

Lateral Direito: Mike Leigh. Consistente, organizado, de uma categoria e respeito indiscutíveis. Apesar de veterano, qual Javier Zanetti, aguenta-se em campo como poucos devido à sua brilhante ocupação do espaço e qualidade na decisão. 

Lateral Esquerdo: Alain Resnais. Senhor de muitas guerras e com uma carreira bem longa, este continua a ser um dos gigantes do meio futebolístico, que apesar de meio enferrujado continua a merecer temor da oposição. O meu Paolo Maldini. 

Defesas Centrais: Michael Haneke e Lars von Trier. Uma dupla temível, capaz de aterrorizar e torturar qualquer adversário. Sem medo de ir às canelas, de jogar sujo, de fazer doer, que olha nos olhos de qualquer um. Sabem o que fazem em campo e usam bem o seu ar provocador e enigmático para aparecer na grande área contrária a cabecear para golo. Uns centrais a fazer lembrar uma combinação de Cannavaro e Thuram, cada um ao seu estilo, eficazes a limpar, certinhos a defender e ferozes a lançar o ataque. São poucos os que se atrevem a enfrentá-los. Impenetráveis, dão segurança e seguram a equipa. 

Trinco: David Fincher. Eficiente, operático, obsessivo, meticuloso. É o cérebro, o líder que controla as acções da equipa e fá-lo com precisão e detalhe irrepreensíveis. O meu Redondo. 

Médio Box-to-Box: Abbas Kiarostami. A complementar um médio-defensivo daquela categoria, tinha que haver um médio box-to-box igualmente excelente. Passe de fino recorte, o naturalismo e simplicidade com que desempenha o seu papel em campo são marcas distintivas. Acima de tudo, o que mais surpreende é a capacidade de autorreflexão que confere ao seu jogo, que o leva a estar no local certo à hora certa, enchendo o campo. Muito crítico consigo mesmo, nunca fica satisfeito e quer sempre fazer mais. O meu Ballack. 

Médio Ofensivo (nº 10): Paul Thomas Anderson. A minha contratação mais cara, digamos, cujo valor está a subir fruto da aclamação crítica que tem recebido nos últimos anos. Mas penso que vale a pena, pois Anderson, apesar de jovem, é tão-só o jogador mais talentoso da sua geração, exímio e quase perfeito no que faz, como se fosse um profissional com muitos anos de experiência. Ambicioso e destemido, é ele que inspira e empurra a equipa para a vitória, como só ele sabe. É um prodígio e tem tudo para ser um Baggio, um Maradona, um Zidane, um Platini ou um Messi. 

Extremo/avançado, direito: Terry Gilliam. Imaginação, originalidade como poucos, com a dose certa de bizarro e fantástico para confundir mesmo o mais persistente dos adversários. Passa com facilidade pelos defesas (o que o diverte imenso), porque estes nunca sabem o que ele vai fazer a seguir. Pouco valorizado, é a minha arma secreta, o meu Futre. 

Extremo/avançado, esquerdo: Pedro Almodovar. Só o perfume da bota deste senhor diz tudo. Romântico, criativo, poético, Almodovar é como se fosse o meu Figo. Nem sempre agrada a todos, mas uma coisa é certa: que o moço tem um talento inato para encantar o espectador, isso tem. 

Ponta de Lança: Todd Haynes. Pode não ser o ponta-de-lança mais concretizador, pode não ser o mais adorado e pode não ser o que ganha mais dinheiro mas, qual Benzema, mostra uma classe ímpar no seu jogo colectivo e impressiona pela sua irreverência, coragem e criatividade. Os guarda-redes adversários temem-no, porque já sabem que se não marca, ele assiste quem vai marcar.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ANNA KARENINA (2012)



Pouco há a dizer sobre a história de “Anna Karenina” que já não tenha sido dito sobre as inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Todo o mundo sabe que o clássico de Tolstoi aborda a sociedade aristrocrática da Rússia do século XIX e a rigidez das suas regras e costumes, contando através da história da bela Anna Karenina, tragicamente condenada a sofrer por amor, como era viver na alta sociedade de então e, bem mais que isso, como era o ambiente político-social da sua Rússia. O que importa frisar, então, nesta adaptação de “Anna Karenina”, é que se trata da terceira colaboração entre Joe Wright e a sua musa, Keira Knightley (que voltam a trabalhar juntos após “Atonement” e “Pride and Prejudice” terem feito de um e outro, respectivamente, importantes figuras do cinema contemporâneo). 


Pragueado por problemas financeiros, “Anna Karenina” obrigou Wright a inventar na concepção da história e fazer algo mais experimental, mais ambicioso, mais arriscado (daí a dividida opinião acerca do filme). Wright propõe que “Anna Karenina” se passe dentro de um teatro – tornando literal a expressão “a vida é um teatro”, em que nós, humanos, somos como um elenco – espectadores da vida dos outros, protagonistas da nossa, muito conscientes de que outros nos olham e nos julgam pelo que fazemos (assim é a sociedade) – tal qual como se fôssemos meras peças de um jogo de xadrez, que nos movemos infindavelmente até que, por fim, a cortina se fecha para nós de vez. Anna Karenina pensa que pode fintar as regras. Pense de novo. As escolhas que fazemos ditam o nosso destino. E assim é para a nossa pobre heroína. 


A produção artística de Sarah Greenwood merece aqui uma ressalva, ao criar múltiplos mundos e a fazer enorme uso do espaço e, sobretudo, do ambiente confinado que lhe é dado, conseguindo conferir ao filme a mesma ilusão de quasi prisão, de clausura, de claustrofobia que Anna Karenina também mostra estar a atravessar (ajudada pelos corsetes bem apertados de Jacqueline Durran). Wright encena esta peça de forma apaixonante, precisa, mas fluída, brincando com este mundo que lhe é oferecido, criando alguns momentos verdadeiramente encantadores, trazendo vivacidade, amor, vitalidade e, finalmente, tragédia a esta peça. A atmosfera que Wright origina com uma simples mudança de cenário é infindável – aquela cena da valsa ainda hoje me assombra. A sagacidade do realizador vê-se também noutra forma de abordagem da história, ao focar-se não só no triângulo entre Anna, Vronsky (um terrível Aaron Johnson) e Karenin (um formidável Jude Law, pena o pouco tempo de ecrã), mas também em mais dois casais, como que a servir de exemplo contrastante para com o que se passa com Anna: o seu infiel irmão Stiva (o brilhante Matthew MacFayden) e sua esposa sofredora Dolly (Kelly MacDonald) e o jovem casal idealista e apaixonado, Levin (Domnhall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander, um achado de 2012). 


Outro elemento digno de nota é Dario Marianelli, também ele de regresso para uma quarta colaboração com Wright. Arriscaria dizer que Wright não faria o filme sem ele – até porque o compositor elaborou toda a música para o filme antes da filmagem, para que Wright pudesse coreografar certas cenas ao som da música. Marianelli, que merecia uma menção aos Óscares pela fantástica música de “Jane Eyre” o ano passado, volta a estar em grande. O mais ténue ranger de cordas desperta mil sentimentos e emparelha na perfeição com a face de Keira Knightley, mais uma vez a encaixar como uma luva num filme de período (a sua especialidade, de “A Dangerous Method” a “The Duchess”), mais uma vez impossível de não admirar. Quando Anna perde o controlo, a fragilidade que Keira exibe desarma o mais sisudo dos seus críticos. Se justiça houvesse, esta interpretação suscitaria mais falatório. 


Colocando de parte os nossos sentimentos acerca do filme, uma coisa, penso eu, fica clara, tanto para quem odeia como para quem apreciou “Anna Karenina”: é a imensidão do génio e intelecto de Joe Wright, que demonstra aqui, ao seu quinto filme, a versatilidade e diversidade do seu arsenal de talentos enquanto realizador. Quando ameaçado com cortes no orçamento, permitir-se a si mesmo criar do nada esta ideia tão absurda e louca quanto potencialmente interessante está ao alcance de muito poucos. Safar-se já era um êxito; fazê-lo da forma como o faz, com aquele que é para mim e até agora, o seu melhor filme, é merecedor de um fortíssimo aplauso.



Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realizador: Joe Wright
Argumento: Tom Stoppard
Elenco: Keira Knightley, Matthew MacFayden, Jude Law, Kelly MacDonald, Alicia Vikander, Domnhall Gleeson, Aaron Johnson-Wood, Olivia Williams, Ruth Wilson, Emily Watson
Fotografia: Seamus MacGarvey
Música: Dario Marianelli

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Arrepios, minha gente.


Anne Hathaway. E venha o Óscar.

LIFE OF PI (2012)



"So, which story do you prefer?"

“Brokeback Mountain”. “Crouching Tiger, Hidden Dragon”. “Sense and Sensibility”. “The Ice Storm”. “Lust, Caution”. E agora “Life of Pi”. Quem mais poderia ser dono desta filmografia cheia de qualidade e diversidade? Ang Lee, uma vez mais, chega a um projecto na altura certa. Antes do mestre asiático se chegar à frente, uma década passou com vários a tentarem adaptar o romance épico de Yann Martel. O último a tentar havia sido Jean-Pierre Jeunet (famoso por “Amélie”), que declarou a película impossível de filmar. Introduzam na equação “Avatar”, o advento do 3D e claro Ang Lee. Estamos em 2012 e “Life of Pi” é uma realidade. Confesso que achava impossível que um filme pudesse ser tão belo e precioso e ao mesmo tempo parecer tão natural, sensível, real. É este o grande dom de “Life of Pi”, esta pureza, esta capacidade de transcender as barreiras desta arte, que faz dele um miraculoso e poético prodígio, uma ode ao cinema. 


Apesar de uma primeira hora difícil de digerir, a segunda metade do filme faz valer imenso a pena, com o visionário realizador a proporcionar-nos momentos inesquecíveis, de ficar completamente arrebatado. Por entre alguma confusão nas ideias que nos pretende transmitir e a necessidade – inerente, pelos temas abordados pelo filme – de evitar tornar-se num longo sermão bíblico sobre o valor da fé na religião e na vida, Lee pega em “Life of Pi” e em tudo aquilo que o filme pretende ser e troca-lhe as voltas, fazendo da viagem do jovem Piscine “Pi” Patel (Suraj Sharma, numa interpretação cheia de vitalidade e carisma, sem a qual seria impossível este filme ter sucesso, complementada na perfeição tanto por Irrfan Khan como a versão adulta de Pi como por Ayush Tandon como Pi mais novo) a bordo de um pequeno barco no meio do Oceano Pacífico, acompanhado pelo seu tigre Richard Parker (majestosamente animado com CGI e 3D) e da sua luta pela sobrevivência o pilar no qual o filme reside. Entretenimento e arte confluem assim para criar um dos mais originais e fascinantes filmes que vi este ano, que nos relembra do poder transcendente e fantasioso que o cinema tem, ao transportar-nos para outros locais, para outras realidades. 


Auxiliado pelo soberbo trabalho do director de fotografia Claudio Miranda (não é por acaso que a fotografia do filme me lembrou a simplicidade e beleza de “The Curious Case of Benjamin Button”, pelo qual Miranda foi nomeado ao Óscar; espero que repita este ano) e pela fluída e relaxante banda sonora de Mychael Danna (que espero que mereça uma nomeação aos Óscares este ano), Ang Lee empresta a sua mestria e estética apurada para transformar as limitações da obra literária que deu base ao filme em forças (o poderio visual, neste caso, fortalece sem dúvida o que se imagina lendo) e fazer de “Life of Pi” um dos melhores do ano e acima de tudo um dos mais pertinentes e audazes filmes dos últimos anos, sobre a viagem de um homem que procura reobter algo em que acreditar. 


Tal como com “The Tree of Life”, no que uns vêem um exercício aborrecido sobre religião e fé, eu vejo um filme ambicioso e importante, um que combina filosofia, teologia, psicologia e espiritualidade e, no fundo, nos dá a nós a missão de escolher o que retiramos da história que nos é contada.

Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Realização: Ang Lee
Argumento: David Magee
Elenco: Suraj Sharma, Ayush Tandon, Irrfan Khan, Rafe Spall, Tabu, Adil Hussain, Gerard Depardieu
Fotografia: Claudio Miranda
Banda Sonora: Mychael Danna


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas festas!


O pessoal do Dial P For Popcorn deseja a todos um óptimo Natal, com muita felicidade e festa junto dos vossos! E que a quadra vos traga bons filmes, que também é preciso!


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

AMOUR (2012)




Atrevo-me a dizer-vos que, enquanto Michael Haneke produzir cinema, arrisca-se seriamente a conseguir títulos, honras e unânime reconhecimento por esse mundo fora. Onde o cinema chegar, a magia de Haneke vai chegar. Amour é a prova viva de que com dois acordes se faz uma canção de amor intemporal. É a prova viva de que com poucas palavras se consegue escrever uma obra-prima. Amour é a prova de que o verdadeiro amor tem pouco a justificar. É intrínseco e naturalmente perceptível por um público suficientemente maduro para o entender. Amour é uma jogada de Haneke que tem tanto de irreverente quanto de clássico.


Uma paradoxo baseado num eterno e profundo amor. Esta é a premissa do filme premiado com a Palma de Ouro de Cannes em 2012 (a segunda para a Haneke nas últimas quatro edições do festival). Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal octogenário que desfruta do prazer dos últimos anos de vida. Na Paris que nos habitou romântica e cultural, são um casal feliz com aquilo que a vida lhes deu. Tudo parece belo e idílico, até que um trágico acontecimento abala a homeostasia do casal. Anne sofre um acidente vascular cerebral que lhe paralisa metade do corpo e que a atira, de forma brutal e impiedosa, para a dependência do marido. A partir deste momento, que marca um volte-face em todo o filme, assistimos ao dia-a-dia de um casal que luta por se manter à tona da água. Assistimos à luta diária, estóica e silenciosa, de um homem a quem roubaram a felicidade e a companhia de uma vida. Assistimos à luta diária, estóica e dolorosa, de uma mulher atraiçoada pelo destino. 


Com uma brutal interpretação por parte dos dois protagonistas (em especial de Emmanuelle, com uma personagem assombrosa), todo o filme se passa num acolhedor e familiar apartamento parisiense, onde não se sente o realizador, onde o espectador faz parte da própria arquitectura do espaço físico do filme, vivendo e percebendo a história na primeira pessoa. É um dos melhores filmes deste ano. E (mais uma vez) a prova de que, na Europa, não há ninguém ao nível de Michael Haneke.

Nota Final: 
A


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Michael Haneke.
Argumento: Michael Haneke.
Ano: 2012
Duração: 127 minutos

domingo, 16 de dezembro de 2012

"Ninho de Cucos" leva prémio nos TCN Blog Awards 2012


Ontem decorreram em Lisboa, no Auditório Rainha Santa Isabel no Centro Cultural da Casa Pia de Lisboa,  os TCN Blog Awards 2012. Aproximadamente setenta pessoas reunidas para se proceder à entrega de prémios aos melhores da blogosfera cinéfila e televisiva. Três horas volvidas num ápice, foi uma vez mais uma cerimónia excitante e divertida, conduzida por um enérgico e bem-disposto Manuel Reis (órfão do companheiro que vos escreve este ano, que teve de abdicar dos deveres de apresentação graças à Faculdade - uma vez mais, essa não perdoa) que deu bem conta do serviço a solo e com a intervenção de caras bem conhecidas como Luísa Barbosa ou Paula Neves. Só uma lamentação: a falha de som nas curtas-metragens "Assim Assim" de Sérgio Graciano e "Black Mask" de Filipe Coutinho. Merecíamos ter tido melhor sorte pois seguramente valeria a pena tê-las visto.

Do certame vencedor este ano, é minha obrigação realçar o vencedor de Melhor Artigo de Cinema, já que esse prémio veio cá para Coimbra, para eu entregar ao nosso Gustavo Santos, pela sua rubrica "Ninho de Cucos". Este reconhecimento, que muito nos apraz a nós no DPFP, é tão-só mais uma prova do talento indesmentível deste nosso colaborador a quem endereçamos os maiores parabéns! 

Aproveitamos para congratular todos os nomeados nesta e nas restantes categorias e os outros vencedores. Para o ano há mais e contamos lá estar de novo, esperemos que com a prometida mudança de cenário para outra cidade, sugerimos Coimbra ou Porto, pode ser?

Abaixo fica a lista completa de vencedores (quem quiser ver a cerimónia, pode fazê-lo aqui):

Melhor Crítica de Televisão
"House - episódio Everybody Lies", por Mafalda Neto, TV Dependente

Melhor Crítica de Cinema
"O Cavalo de Turim", por Tiago Ramos, Split-Screen

Melhor Entrevista
"Entrevista a Jonathan Rosenbaum", por Miguel Domingues, À Pala de Walsh

Melhor Site/Portal de Cinema/Televisão
Magazine HD

Melhor Artigo de Televisão
"RTP 2 - Sentimento de Revolta", por Rui Alves de Sousa, Companhia das Amêndoas

Melhor Artigo de Cinema
"Ninho de Cucos (IV)", por Gustavo Santos, Dial P for Popcorn

Melhor Novo Blogue
Hoje vi(vi) um filme (Inês Moreira Santos)

Melhor Iniciativa
Ficheiros Secretos - 10 anos, Imagens Projectadas

Melhor Blogue Individual
Close-Up (Catarina d'Oliveira)

Melhor Blogue Colectivo
TV Dependente

Blogger do Ano
Nuno Reis, Antestreia

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A mais recente obsessão


Será que a Academia tem coragem para finalmente (!) nomear a Karen O?

 

Se estiverem interessados, podem consultar AQUI a lista das 75 canções elegíveis para concurso ao Óscar de Melhor Canção Original. A aposta para vencedora vai, claro, para a inevitável Adele ("Skyfall").

Naturalmente... Almodovar


"Los Amantes Pasajeros" ("I'm So Excited!" é o título na língua de Shakespeare) traz de volta o cineasta mais irreverente e criativo dos últimos vinte anos. Almodovar. What else?




quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Nomeados aos Screen Actors Guild (SAG) Awards e comentário



Depois do anúncio, no dia de ontem, dos nomeados para a edição deste ano dos Critics' Choice Movie Awards, a ter lugar a 10 de Janeiro, eis que hoje chegam os nomeados aos Screen Actors Guild Awards, os prémios do sindicato dos actores norte-americanos, mais um dos grandes precursores na corrida aos Óscares.

Sem sobressaltos significativos, as grandes surpresas das nomeações resumem-se sem dúvida à presença de Nicole Kidman entre as nomeadas para Melhor Actriz Secundária ("The Paperboy"), de Javier Bardem ("Skyfall") como Melhor Actor Secundário e de Bradley Cooper ("Silver Linings Playbook") como Melhor Actor. A exclusão de Emmanuelle Riva ("Amour") entre as nomeadas para Melhor Actriz também poderá indicar que o seu lugar nas candidatas ao troféu da Academia está em risco (o que duvido), sendo que os SAG preteriram Riva para dar novo fôlego às candidaturas de Naomi Watts ("The Impossible") e Helen Mirren ("Hitchcock"), que curiosamente ficou sem o seu parceiro nomeado, Anthony Hopkins, que já havia falhado a nomeação aos Critics' Choice. Más notícias? Duas oclusões surpreendentes foram as de Amy Adams e Joaquín Phoenix ("The Master"), há muito tempo tidos como garantidos nos nomeados aos Óscares, que têm vindo a perder fulgor nos últimos tempos para outros competidores fortes. 

Já nas categorias de televisão a situação foi muito irregular. Como de costume com os SAG, aliás. Nas categorias de representação, Alec Baldwin deve ganhar facilmente o seu oitavo (!) troféu seguido, sem concorrência de peso (alguém acredita que actores vão dar a um comediante, Louis CK, um prémio? Ha!) e Amy Poehler, que já devia ter uma estante cheia de Emmys, Globos de Ouro e SAG, bem que podia ganhar desta vez, já que não tem nem Laura Linney, nem Melissa McCarthy, nem Julia Louis-Dreyfus a concorrer contra ela. E já agora: Nem a Julia Louis-Dreyfus nomeiam? Que raio. Julie Bowen ("Modern Family"), vencedora de Melhor Actriz em Comédia no ano transacto, acaba arrumada este ano, mas a perenial Betty White ("Hot in Cleveland") lá continua, bem como Sofia Vergara ("Modern Family"), que nos últimos dois anos se limita a ser eye candy e a levar com deadpan jokes, basicamente não faz nada na série senão falar de forma estranha e afectada. Mas não pensem por um minuto que a relação íntima da comédia de sucesso da ABC abalou desta vez: tornou a receber nomeações para Elenco e para Eric Stonestreet e Ty Burrell. E prémios para os outros, para variar não? 

Queixo-me acima porque de facto à parte de "Modern Family", parece que actores não vêem muita televisão. Isto porque ir buscar "Glee" e "The Office" para elenco é do mais rebuscado possível. E se bem que eu aprecio a nomeação - merecida! - de "Nurse Jackie", ser a primeira nomeação à quarta temporada da série é digno da twilight zone não? 

Nos Dramas já esperava a queda sem cerimónias de "The Good Wife" (ainda bem que Margulies manteve a nomeação) e pouco há a reclamar quando a lista é composta por três dos melhores programas da televisão actual - "Breaking Bad", "Homeland", "Mad Men" - um êxito da HBO muitíssimo bem feito e com mão de Scorsese ("Boardwalk Empire") e o último nomeado é um êxito internacional sem paralelos (independentemente da fraca segunda temporada), "Downton Abbey".

A troca de Jeff Daniels ("The Newsroom") por Michael C. Hall ("Dexter") faz sentido, bem como a inevitável Jessica Lange e a irrepreensível Maggie Smith marcarem presença para Melhor Actriz em Drama, com Michelle Dockery ("Downton Abbey") a estrear-se nestas andanças, depois da nomeação aos Emmys. Pena que não houve lugar para a minha Christina Hendricks ("Mad Men"). Mas para a Sofia Vergara já houve! Espertos.

Bem, cá fica abaixo a lista completa de nomeados. A cerimónia de entrega dos Actors (nome do prémio atribuído pelo Screen Actors Guild) terá lugar a 27 de Janeiro.

CINEMA

MELHOR ELENCO
"Argo"
"The Best Exotic Marigold Hotel"
"Les Misérables"
"Lincoln"
"Silver Linings Playbook"

MELHOR ACTOR
Bradley Cooper, "Silver Linings Playbook"
Daniel Day-Lewis, "Lincoln"
John Hawkes, "The Sessions"
Hugh Jackman, "Les Misérables"
Denzel Washington, "Flight" 

MELHOR ACTRIZ
Jessica Chastain, "Zero Dark Thirty"
Marion Cotillard, "Rust and Bone"
Jennifer Lawrence, "Silver Linings Playbook"
Helen Mirren, "Hitchcock"
Naomi Watts, "The Impossible"

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Alan Arkin, "Argo"
Javier Bardem, "Skyfall"
Philip Seymour Hoffman, "The Master"
Robert deNiro, "Silver Linings Playbook"
Tommy Lee Jones, "Lincoln"

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Sally Field, "Lincoln"
Anne Hathaway, "Les Misérables"
Helen Hunt, "The Sessions"
Nicole Kidman, "The Paperboy"
Maggie Smith, "The Best Exotic Marigold Hotel"


TELEVISÃO


MELHOR ELENCO - DRAMA
"Boardwalk Empire"
"Breaking Bad"
"Downton Abbey"
"Homeland"
"Mad Men"

MELHOR ELENCO - COMÉDIA
"30 Rock"
"The Big Bang Theory"
"Glee"
"Nurse Jackie"
"The Office"

MELHOR ACTOR - DRAMA
Steve Buscemi, "Boardwalk Empire"
Bryan Cranston, "Breaking Bad"
Jeff Daniels, "The Newsroom"
Jon Hamm, "Mad Men"
Damian Lewis, "Homeland"

MELHOR ACTRIZ - DRAMA
Claire Danes, "Homeland"
Michelle Dockery, "Downton Abbey"
Jessica Lange, "American Horror Story"
Julianna Margulies, "The Good Wife"
Maggie Smith, "Downton Abbey"

MELHOR ACTOR - COMÉDIA
Alec Baldwin, "30 Rock"
Ty Burrell, "Modern Family"
Louis CK, "Louie"
Jim Parsons, "The Big Bang Theory"
Eric Stonestreet, "Modern Family"

MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA
Edie Falco, "Nurse Jackie"
Tina Fey, "30 Rock"
Amy Poehler, "Parks and Recreation"
Sofia Vergara, "Modern Family"
Betty White, "Hot in Cleveland"

MELHOR ACTOR - MINISSÉRIE
Kevin Costner, "Hatfields & McCoys"
Woody Harrelson, "Game Change"
Ed Harris, "Game Change"
Clive Owen, "Hemingway & Gellhorn"
Bill Paxton, "Hatfields & McCoys"

MELHOR ACTRIZ - MINISSÉRIE
Nicole Kidman, "Hemingway & Gellhorn"
Julianne Moore, "Game Change"
Charlotte Rampling, "Restless"
Sigourney Weaver, "Political Animals"
Alfre Woodward, "Steel Magnolias"

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Nomeados aos BFCA (Critics' Choice) e comentário à corrida



Conhecidos como os Critics' Choice, atribuídos pelo grupo de imprensa cinematográfica BFCA (Broadcast Film Critics Association), são talvez a terceira premiação mais importante na corrida aos Óscares, a seguir aos Golden Globes e aos SAG (e bem mais inclusivos que estes últimos, que dizem respeito apenas aos actores). Apesar de cá no DPFP termos na nossa génese o objectivo de sermos uma espécie de prognosticadores da corrida aos Óscares, temos tido demasiado trabalho para acompanhar a fundo todos os prémios de críticos que vão surgindo. De qualquer forma, os mais importantes anunciaremos. Cá deixamos então a lista de nomeados, liderada por "Les Misérables" e "Lincoln", que conseguiram mais de dez nomeações cada um. A cerimónia realiza-se a 10 de Janeiro.

MELHOR FILME
ARGO
BEASTS OF THE SOUTHERN WILD
DJANGO UNCHAINED
LES MISÉRABLES
LIFE OF PI
LINCOLN
THE MASTER
MOONRISE KINGDOM
SILVER LININGS PLAYBOOK
ZERO DARK THIRTY

Uma respeitável lista de dez nomeados. Também penso que nos Óscares não vamos ter muito diferente disto, só que penso que com menos nomeados (não acho que passe de sete, este ano). 

MELHOR ACTOR
Bradley Cooper, “Silver Linings Playbook”
Daniel Day-Lewis, “Lincoln”
John Hawkes, “The Sessions”
Hugh Jackman, “Les Misérables”
Joaquin Phoenix, “The Master”
Denzel Washington, “Flight”

Os seis principais candidatos à nomeação, com Anthony Hopkins - o sétimo grande candidato - excluído.

MELHOR ACTRIZ
Jessica Chastain, “Zero Dark Thirty”
Marion Cotillard, “Rust and Bone”
Jennifer Lawrence, “Silver Linings Playbook”
Emmanuelle Riva, “Amour”
Quvenzhané Wallis, “Beasts of the Southern Wild”
Naomi Watts,“The Impossible”

Também aqui seis das sete candidatas à nomeação aos Óscares. Helen Mirren, também de "Hitchcock", posta de parte. Não surpreende - esse filme, se tiver amor, é da parte dos Globos.

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Alan Arkin, “Argo”
Javier Bardem, “Skyfall”
Robert De Niro, “Silver Linings Playbook”
Philip Seymour Hoffman, “The Master”
Tommy Lee Jones,“Lincoln”
Matthew McConaughey, “Magic Mike”

Contente pela inclusão de McConaughey e Bardem, duas excelentes surpresas este ano. O resto... garantidos nos Óscares. E parece-me que Michael Peña ("End of Watch") então é para esquecer. E mesmo Michael Fassbender ("Prometheus"), também nada? Que vergonha...

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Amy Adams, “The Master”
Judi Dench, “Skyfall”
Ann Dowd, “Compliance”
Sally Field, “Lincoln”
Anne Hathaway, “Les Misérables”
Helen Hunt,“The Sessions”

Ficaria satisfeito se Dowd conseguisse imitar a Jacki Weaver. Veremos. Mais não seja, esta lista garante que continue na conversa. Se Dench arrancar nomeação aos Globos e SAG por esta interpretação, acredito que possa ser nomeada também. Destas seis, parece-me que a que terá menos hipóteses será Amy Adams, que precisa que o seu filme seja nomeado para vários Óscares para entrar. E bem, parece que posso também perder a esperança em Nicole Kidman ("The Paperboy")

MELHOR ACTOR/ACTRIZ JOVEM
Elle Fanning, “Ginger & Rosa”
Kara Hayward,“Moonrise Kingdom”
Tom Holland, “The Impossible”
Logan Lerman,“The Perks of Being a Wallflower”
Suraj Sharma,“Life of Pi”
Quvenzhané Wallis,“Beasts of the Southern Wild”

Seis escolhas merecidas. Pena não haver lugar para o pequeno de "Looper", ainda assim.

MELHOR ELENCO
"Argo"
"The Best Exotic Marigold Hotel"
"Les Misérables"
"Lincoln"
"Moonrise Kingdom"
"Silver Linings Playbook"


A força do elenco de "Marigold Hotel" é o que me preocupa nas escolhas para Melhor Filme. Será que não vai arranjar lá lugar? O resto das escolhas são acertadas, salvo a bizarra inclusão de "Playbook". Não há outro elenco mais merecedor? De "Beasts of the Southern Wild" a "Django Unchained"? A sério?

MELHOR REALIZADOR
Ben Affleck, “Argo”
Kathryn Bigelow, “Zero Dark Thirty”
Tom Hooper, “Les Misérables”
Ang Lee, “Life of Pi”
David O. Russell, “Silver Linings Playbook”
Steven Spielberg, “Lincoln”

Respeito a opção por O'Russell e por Lee, continuo a achar que Haneke merece um lugar nestes nomeados.

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
“Django Unchained”
“Flight”
“Looper”
“The Master”
“Moonrise Kingdom”
“Zero Dark Thirty”

Lista dos Óscares não deve ter "Flight" e "Looper" e conter "Amour", de resto parece-me ser isto, não?

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
“Argo”
“Life of Pi”
“Lincoln”
“The Perks of Being a Wallflower”
“Silver Linings Playbook”

Categoria que mais confusão me mete para os Óscares. "Lincoln", "Argo" e "Life of Pi" parecem-me, contudo, seguros.

MELHOR FOTOGRAFIA
“Les Misérables”
“Life of Pi”
“Lincoln”
“The Master”
“Skyfall”

Parecem-me bem. Ano muito forte para a fotografia. Mas Danny Cohen - tal como há dois anos - a fazer-me comichão.

MELHOR DIRECÇÃO ARTÍSTICA
“Anna Karenina”
“The Hobbit”
“Les Misérables”
“Life of Pi”
“Lincoln"

Das corridas mais interessantes a seguir nos Óscares. "Lincoln" parece ter a vantagem mas consigo achar em qualquer um destes quatro outros nomeados razões de sobra para lhe pôr o voto em cima.

MELHOR MONTAGEM (EDIÇÃO)
“Argo”
“Les Misérables”
“Life of Pi”
“Lincoln”
“Zero Dark Thirty”

Dificilmente haverá, para mim, edição melhor este ano que a de "Argo" mas os cinco nomeados são, no fim de contas, os cinco grandes candidatos ao prémio principal ("Life of Pi" numa segunda capacidade, mas ainda assim).

MELHOR GUARDA-ROUPA
“Anna Karenina”
“Cloud Atlas”
“The Hobbit”
“Les Misérables”
“Lincoln”


Obsoleto fazer esta categoria sem as duas Brancas de Neve. "Mirror Mirror" e "Snow White and the Huntsman" merecem aqui referência (pese a fraca qualidade dos dois filmes). "The Hobbit" e "Lincoln" para guarda-roupa são coisas que nunca hei-de entender.

MELHOR MAQUILHAGEM
"Cloud Atlas"
"The Hobbit"
"Les Misérables"
"Lincoln"

Arriscaria dizer que esta categoria é de "Cloud Atlas". Pelo menos aqui. Nos Óscares... Vai depender de qual é o maior titã, "Misérables" ou "Lincoln". Podiam ter juntado "The Impossible" para perfazer cinco nomeados.

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"The Avengers"
"Cloud Atlas"
"The Dark Knight Rises"
"The Hobbit"
"Life of Pi"

Parece-me correcto. Mas uma nomeação a "The Impossible" não era mal pensado.

MELHOR FILME ANIMADO
"Brave"
"Frankenweenie"
"Madagascar 3"
"ParaNorman"
"Rise of the Guardians"
"Wreck-It Ralph"

Prenda para a Dreamworks por ter explorado melhor a franchise Madagascar, com o terceiro a ser o melhor filme dos três por larga medida. De resto, os cinco nomeados aos Óscares estão lá (se bem que temo que "Le Tableau" vá estragar as contas a algum destes pretendentes).

MELHOR FILME ACÇÃO
The Avengers
The Dark Knight Rises
Looper
Skyfall


Só arranjaram quatro filmes dignos do título de melhor filme de acção? Bem, ao menos de facto são todos relativamente bons.

MELHOR ACTOR - ACÇÃO
Christian Bale – “The Dark Knight Rises”
Daniel Craig – “Skyfall”
Robert Downey Jr. – “The Avengers”
Joseph Gordon-Levitt – “Looper”
Jake Gyllenhaal – “End of Watch”

Aceito os cinco nomeados. Mas se Gylenhaal pode ser nomeado por "End of Watch", então porque não Michael Peña tanto nesta categoria (é co-protagonista) como em Melhor Actor Secundário? E porque não é Melhor Filme de Acção? Uff. E não há lugar para "Prometheus" mas para as piadolas do Downey Jr e as interpretação mais dramática de sempre do Christian Bale como Batman já há? Que piada mais negra.

MELHOR ACTRIZ - ACÇÃO
Emily Blunt – “Looper”
Gina Carano – “Haywire”
Judi Dench – “Skyfall”
Anne Hathaway – “The Dark Knight Rises”
Jennifer Lawrence – “The Hunger Games”

Muita liberdade aqui com esta categoria, mas são quatro interpretações de facto impressionantes mais uma interpretação que não o é, isto é, uma rapariga feita para filme de acção (Carano; há paredes com maior expressividade).

MELHOR COMÉDIA
Bernie
Silver Linings Playbook
Ted
This Is 40
21 Jump Street


Boas escolhas. "Bernie" para Comédia é puxado. "This is 40" surpreende-me (as críticas não têm sido boas; será que o filme foi visto por muita gente ou por ser de Apatow não foi sequer preciso para marcarem a cruzinha?)

MELHOR ACTOR - COMÉDIA
Jack Black – “Bernie”
Bradley Cooper – “Silver Linings Playbook”
Paul Rudd – “This Is 40”
Channing Tatum – “21 Jump Street”
Mark Wahlberg – “Ted”

Sem queixas.

MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA
Mila Kunis – “Ted”
Jennifer Lawrence – “Silver Linings Playbook”
Shirley MacLaine – “Bernie”
Leslie Mann – “This Is 40”
Rebel Wilson – “Pitch Perfect”

Bem, o mundo quer-me mesmo impingir a Rebel Wilson como nova Tina Fey / talento cómico de uma geração. Gente, não vai acontecer.

MELHOR FILME FICÇÃO CIENTÍFICA/HORROR
The Cabin in the Woods
Looper
Prometheus

Adoro a junção dos dois géneros. Têm geralmente tanto a ver! Enfim. Só três nomeados demonstra o quão parolo este tipo de filme é considerado pela indústria. Que vergonha.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amour"
"The Intouchables"
"A Royal Affair"
"Rust and Bone"

"Somos tão sofisticados que só nomeamos quatro filmes em vez dos habituais cinco e em três deles fala-se francês. O quarto, bem ouvi dizer que dos festivais europeus todos foi o que mais se falou. Feito". Podiam ter menos descaramento e ao menos pesquisar um filme que pudesse preencher a quinta vaga. Como se fosse preciso mais prova que a indústria americana não vê filmes estrangeiros que não sejam de realizadores conhecidos (como Almodovar, Salles, Audiard, Haneke, etc).


MELHOR DOCUMENTÁRIO
"Bully"
"The Central Park Five"
"The Imposter"
"The Queen of Versailles"
"Searching for Sugar Man"
"West of Memphis"


Nada a dizer. "West of Memphis" e "Queen of Versailles" já arrumados pela Academia da shortlist não podem concorrer ao Óscar. Suspeito que "Central Park Five" leva o troféu.

MELHOR MÚSICA ORIGINAL
“For You” - Keith Urban ("Act of Valor")
“Learn Me Right” - Birdy, Mumford and Sons ("Brave")
“Skyfall” – Adele, Paul Epsworth ("Skyfall")
“Still Alive” – Paul Williams ("Paul Williams Still Alive")
“Suddenly” ("Les Misérables")

Não sei que fazer desta categoria. É sempre uma desgraça nos Óscares.

MELHOR BANDA SONORA
“Argo” (Alexandre Desplat)
“Life of Pi” (Mychael Danna)
“Lincoln” (John Williams)
“The Master” (Jonny Greenwood)
“Moonrise Kingdom” (Alexandre Desplat)

Categoria perfeita se assim fosse nos Óscares. Mas como já cometeram a ridícula decisão (todos os anos é assim, incrível) de desqualificar "Moonrise Kingdom", esperem mais boas decisões dentro de um mês.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Em resposta ao artigo escrito por Mourinha "Às Criancinhas"


Saiu no suplemento Ípsilon, do jornal Público de 30 de Novembro passado, um texto que não pode deixar de suscitar uma reacção. Com o título "A evolução da alternativa ao academismo contada às criancinhas", esse artigo de opinião versa, em tom de escárnio, sobre a situação presente da revista francesa Cahiers du Cinéma, contraposta aos anos históricos da sua afirmação no mundo. O seu redactor, o crítico de cinema Jorge Mourinha, "conta às criancinhas" a história da revista e o seu impacto nos modos de ver, dar a ver e fazer Cinema. Diz, a certa altura, que a política de autores tem vindo a "impor globalmente" uma "oposição comummente aceite entre 'cinema comercial' e 'cinema de arte' ou 'cinema de autor'". Percebemos que Mourinha sabe que os Cahiers procuraram precisamente “confundir” essas etiquetas redutoras entre o que é comercial e o que é arte; que viram arte no comercial (caso de Hitchcock) e comercial na arte (caso dos autores "burgueses" da Tradição da Qualidade, que Truffaut denunciou como a tendência mais funesta do cinema francês). Contudo, não entendemos onde está a lógica em afirmar que o que corresponderia hoje a defender, como o fizeram na altura os críticos dos Cahiers, realizadores como Hawks e Hitchcock, seria "erguer a 'autor'" um cineasta como Christopher Nolan, "coisa que aos Cahiers hoje, entrincheirados no academismo que eles próprios criaram, nunca passaria pela cabeça."

De repente, Mourinha sonega toda a história que se segue à formulação da "política de autores": nada mais que a emancipação do Cinema a nível mundial. O que Mourinha propõe é olharmos para o cinema comercial como os críticos dos Cahiers souberam olhar no seu tempo, mas como se a dimensão autoral fosse indissociável da natureza comercial ou não do filme em análise. Os Cahiers não estabeleceram que TODO o cinema de autor tem de ser cinema comercial; disseram que o cinema de autor pode nascer de uma conjuntura económica e política adversa à liberdade artística do criador. Entre o "pode" e o "tem" cabe o mundo — claro que para Mourinha, como a última produção de Nolan é cinema de autor, coisa que este arruma só pelo facto de "dizer que assim é", então Nolan é o novo Hawks ou o novo Hitchcock e... Mourinha o novo Truffaut?

O que os críticos dos Cahiers fizeram foi — e voltamos a usar o termo "vitimizante" de Jorge Mourinha — "impor" a liberdade de se ver cinema muito para lá dos sistemas de gosto instalados — esses sim, foram as vítimas da sua crítica. Os Cahiers propuseram um "novo olhar" livre de preconceitos tal como não foi de modo algum imposto um novo preconceito que dita que todo o cinema comercial americano está destituído de dimensão autoral, ou então Spielberg não teria visto o seu "War of the Worlds" ser considerado pela revista "só" o oitavo melhor filme da primeira década do novo milénio... Ou M. Night Shyamalan não teria merecido a consagração que nunca teve — e algum dia terá? — no seu próprio país.

Mais à frente, o crítico do Público diz: "Muitos dos nomes que os Cahiers defendem na sua lista como cineastas livres fazem parte do academismo do cânone 'autorista', ao qual pertencem em alguns casos mais pela sua postura perante o cinema do que pelos filmes em si." Como pode a "postura sobre o cinema" não estar nos "filmes em si", ou melhor, onde foram os críticos dos Cahiers buscar essa postura que não nos filmes? Parece-nos evidente que Mourinha, por não tolerar, por exemplo, o cinema de Ferrara, sente-se no direito de tomar toda a linha editorial dos Cahiers por ortodoxa ou académica ou, no limite, "conformada" — um de nós também detestou o último Coppola, o outro não considera “Holy Motors” como merecedor de inclusão em Tops dos melhores do ano, mas vê-los na lista da Cahiers lembra-nos como é sempre possível um olhar diferente sobre o mesmo objecto...

Mourinha cita Bazin para dizer que "tudo é relativo", algo que o crítico do Público não põe em prática quando se mostra incapaz de: aceitar a diversidade de proveniências do Cinema, reconhecer o lugar que os Cahiers ocuparam e ainda procuram ocupar no desafio aos unanimismos e aos "gostos maioritários" e — detenhamo-nos, por fim, neste ponto — respeitar a diversidade de visões sobre um filme provenientes de fontes como os, segundo Mourinha, “blogues que multiplicam opiniões”.

Recordamos que a presente indignação ao artigo publicado pelo suplemento Ípsilon nasce na própria comunidade blogger cinéfila portuguesa, uma comunidade liberta de linhas editoriais que não a instituída pelo próprio blogger em prol de uma reflexão cinematográfica anti-consensual, inclusive geradora de alguns futuros profissionais do cinema português e que, em toda a sua natureza, pluralidade, virtudes e defeitos, revela-se um dos espaços mais férteis e inconformados no que toca ao debate sobre o passado, presente e futuro da Sétima Arte.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

KILLING THEM SOFTLY (2012)



"America is not a country, it's a business."

Estreou na semana passada nas salas de cinema portuguesas e é o Filme da Semana no Dial P for Popcorn. Killing Them Softly é a adaptação ao grande ecrã, por parte de Andrew Dominik (Chooper; The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), do livro do escritor George V. Higgins, Cogan's Trade. Toda a acção se desenrola num curto espaço temporal, com momentos de acção intercalados por momentos de reflexão onde se nota um papel importante e influente do realizador e do principal actor (Brad Pitt), numa bonita e bem conseguida caricatura da sociedade americana. Não é um filme fácil de absorver e, admito, talvez seja necessária uma boa dose de paciência e vontade para alguns (poucos) momentos que têm tanto de monótonos como de supérfulos para toda a história.


Em linhas gerais, tudo começa com um assalto onde dois jovens desengonçados colocam em risco a sua vida por meia dúzia de dólares. Baseado num esquema visionário,  Johnny Amato (Vincent Curatola) contrata Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn) - duas surpreendentes interpretações! -  para um assalto ao salão de jogos de Markie Trattman (Ray Liotta), um charlatão que poucos meses antes havia cometido o erro de simular um falso assalto aos seus próprios clientes. Salvaguardados pela ideia de que, a repetir-se a situação, seria sempre em cima de Trattman que acabariam por cair as consequências dos seus actos, JohnnyFrankie e Russell relaxam e aproveitam o pouco dinheiro do assalto para o seu próprio gozo.


Os problemas (e a grande acção de todo o filme) aparecem quando o grupo de homens poderosos e sem escrúpulos, sentindo-se novamente gozados e ultrajados com o caricato assalto, decide contratar Jackie (Brad Pitt), um homem experiente e capaz de resolver os problemas com o à vontade de meia dúzia de balas. Mais uma excelente interpretação de um actor que, infelizmente, parece ainda acusar o fardo da imagem atraente e disponível que cultivou nos primeiros anos da sua carreira, tardando em receber o reconhecimento generalizado das suas versáteis capacidades enquanto actor. 


A caça ao homem é o grande trunfo deste filme, que vai juntando de forma sagaz e pertinente, algumas das frases mais emblemáticas (e comprometedoras) frases de George W. Bush e de Barack Obama. Com uma cena final que resume todo o intuito de um filme que se apresenta em sintonia com a sociedade americana dos dias de hoje, Killing Them Softly é uma surpresa que se torna agradável se o espectador assim o desejar. Volto a repetir. É preciso alguma dose de paciência e de vontade para se perceber e se desfrutar dos objectivos de Andrew Dominik. A partir daí, tem à sua disposição uma história rude, que se desenrola (quase sempre) numa cadência muito rápida e com momentos de grande cinema, interpretações de grande nível e um cunho muito forte de um realizador que vai, aos poucos, criando uma sólida e sustentada carreira no cinema.


Nota Final: 
B


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Andrew Dominik
Argumento: Adaptação de Andrew Dominik do livro de George V. Higgins
Ano: 2012
Duração: 97 minutos

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

[ANTEVISÃO] ZERO DARK THIRTY



Depois de ter saído da sala de cinema a meio de The Hurt Locker, acredito que será com Zero Dark Thirty que Kathryn Bigelow (vencedora da Estatueta Dourada de Melhor Filme e Melhor Direcção com The Hurt Locker em 2010) me conseguirá convencer. A história tem potencial, os trailers são promissores, o elenco está bem recheado. Zero Dark Thirty recria a longa jornada que culminou na captura de Osama Bin Laden, naquela que foi a maior caça ao homem de que há memória nos tempos modernos. Nos Estados Unidos a estreia será ainda este mês. O lugar cativo nos Oscars deste ano está mais do que assegurado, com um argumento bem à medida para a nomeação em várias categorias. Arrisco-me, até, a dizer-vos que o currículo de Kathryn e o potencial e importância da história com que se apresenta a concurso, Zero Dark Thirty é um dos mais fortes candidatos a liderar os prémios da edição de 2013 da Academia. Estreia em Portugal no dia 17 de Janeiro.


domingo, 2 de dezembro de 2012

NINHO DE CUCOS (VII)

Novo mês, novo insurgimento social contras as velhas e austeras medidas que a Troika nos teima em oferecer como brinde natalício antecipado. Governo e sindicatos degladiam-se de forma cada vez menos figurada, numa luta entre pessoas cada vez menos interessadas em lutar. Assim se progride em Passos lentos no país pelo qual já ninguém dá Cavaco. Mas não sou eu, universitário sustentado pela família, que ainda me dou ao luxo de sofrer menos pelos sacrifícios financeiros, que pelo impacto psicossocial da crise, que vou juntar o meu latim à horda de bitaites que apesar de alheios à solução para a crise, são omniscientes relativamente ao facto da necessidade da guilhotina ter cabeças para separar do respectivo pescoço.


Não. Em vez disso deixem-me preocupar com as convocatórias da seleção ou com a mensagem de voz nos comboios da CP, enquanto escolho o país para onde vou emigrar. E se bem que as escolhas do mister Paulo Bento não têm volta a dar, já a robótica e feminina voz, que no final das viagens ferroviárias endereça uma agradecimento pela "preferência" dos seus utentes pela única empresa de comboios no nosso país, podia claramente beneficiar de uma completa remodelação. Sei bem que há alternativas ao transporte ferroviário, mas ter de ouvir uma barbaridade destas de uma operadora de transportes com um serviço tão ruinoso e tão pouco fiável como a CP torna-se tão agradável como ouvir a minha professora, que não chega à aula das 14h antes das 15h30, queixar-se da minha pontualidade. É sofrimento imerecido e numa época em que um noticiário é fonte suficiente de sofrimento para toda a semana revela-se cada vez mais premente suprimir estes desnecessários focos de angústia, para a população em geral, e para mim em concreto. Julgo mesmo oportuno revisitar a minha aula do meio-dia, em que um outro professor meu atentava na necessidade da precisão do discurso, citando Jô Soares com a feliz expressão: "Meça suas palavras!"

No nosso Portugal não impressiona que o efeito borboleta de uma má escolha de palavras em São Bento, seja razão suficiente para desencadear um ciclone de Bragança a Sagres. Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de se chutar uma pedra e aparecerem umas 10 pessoas capazes de identificar a mais ampla variedade de defeitos no novo acordo ortográfico, mas se sai uma notícia n'A Bola ou no Record a dizer que fulano vai ser "irradiado" do desporto, é rara a alma que reconhece a violência dos abusos a que a sua língua materna acabou de ser sujeita. Permitam-me portanto ser apologista do pedantismo, já que dele depende, não só a defesa da nossa cultura linguística, como também o bom funcionamento da nossa disfuncionante sociedade.

Mas quem vive também de uma boa escolha de palavras é o cinema. 


Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, mas no fundo ninguém usa imagens para evidenciar a singularidade de uma circunstância. Uma citação, um título, uma discussão são, não raras vezes, exemplos máximos do expoente artístico que um bom filme pode oferecer. Pessoalmente admiro a arte de fazer funcionar um título. Pode não parecer tarefa digna de louvor, mas a congregação de um conjunto de palavras que sirva mais do que o simples propósito de rotular um filme comporta, por vezes, uma qualidade artística que muitas fitas não conseguem sequer aproximar nas suas centenas de minutos de rodagem. Mais do que isso, é difícil nos tempos que correm, encontrar um título que não denuncie metade da história da película, o que não deixa de ser sobejamente irritante, tendo em conta a quantidade de trailers e sinopses que surgem cedo demais e revelam mais do que devem.

A este ponto serve bem ao objectivo do meu argumento tirar "Good Bye Lenin", de Wolfgang Becker, da cartola, obra que representa exemplarmente a escassez de bons títulos a que me refiro. Esta película alemã, cujo nome nos transporta para um universo decerto comunista, oculta de forma encantadora a necessidade desta epígrafe. O filme desenrola-se na Alemanha dividida, mais concretamente do lado de lá do muro, numa altura em que o regime comunista parece prestes a dar os seus últimos suspiros de vida. Sucede então, que pouco antes da queda do muro, a mãe do protagonista entra em coma, e não acorda até que toda a evidência da sociedade em que sempre viveu seja substituída pela máquina capitalista, com rapidez e eficácia tais que a Blitzkrieg hitleriana se sentiria vexada perante tão descomplexada empresa. O desenlace do filme determina entretanto a dramática (porém cómica) tentativa do filho em proteger a ressuscitada mãe da invasão dos valores ocidentais de liberalização económica. Contudo, o pináculo da narrativa fica reservado para o momento em que a pobre mãe, vendo-se finalmente livre do hermético controlo da sua cria, se depara com a alienígena visão de uma Alemanha forrada a painéis publicitários, quando do céu surge, transportada por um helicóptero, uma estátua de Lenin de braço estendido em jeito de despedida. E é aí que o título do filme se desacorrenta da sua mera função de etiqueta, para fornecer àquela cena uma grandiosidade simbólica, de outra forma inatingível.


Este é o verdadeiro alcance que um perfeito uso da palavra é capaz de atingir. Enquanto que a necessidade básica do uso da palavra se confina à tradução de conceitos para linguagem comunicável e objectiva, a fim de fornecer informação para descobrir relatividade, o autor do filme contorna essa utilização comum atribuindo-lhe uma função que ultrapassa vastamente o seu valor concreto e fornece-lhe uma dimensão simbólica poucas vezes disponível fora da arte puramente literária. De qualquer das formas há-de sempre haver quem determine que o filme do Spiderman deva ser estandardizadamente chamado "Spiderman", e daí seja fácil perceber que a mestria do uso da palavra vá muito mais além do que saber juntar meia dúzia de vocábulos para simplesmente encontrar forma de denominar algo. 

Mas pronto isto tem o valor que tem quando é dito por alguém que encabeça os seus textos com números. 

Gustavo Santos