Dial P for Popcorn: Julho 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Especial Animação: A vilã de 101 DALMATIANS (50º Aniversário)

Nesta semana especial, que abre o mês de festividades, pedimos a amigos próximos e colaboradores de outros blogues que nos ajudassem a abordar um dos nossos temas preferidos: a animação. Todos eles foram limitados a um máximo de dez imagens ou um vídeo para a sua tarefa. Sete dias, sete colaboradores, sete títulos que festejam este ano o início de uma nova década de vida. Muita diversão, emoção e magia é prometida. A ver se cumprimos. 

O nosso quinto convidado é dono de um dos espaços mais interessantes e irreverentes da nossa blogosfera, o qual me dá imenso prazer visitar: o Samuel Andrade (Keyser Soze's Place) que, na senda dos clássicos Disney, nos vem falar de um filme que atingiu a meia centena de vida no passado dia 25 de Janeiro, 101 DALMATIANS. Aqui vos deixo com o Samuel:



Rever "101 DÁLMATAS" é reconhecer que, de toda a Sétima Arte de animação, a Disney perfilou um impressionante conjunto de vilãs: a Rainha Grimhilde de "BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES", a Ursula em "A PEQUENA SEREIA", a Yzma em "PACHA E O IMPERADOR", a Mãe Gothel em "ENTRELAÇADOS". Contudo, nenhuma terá sido tão bem construída — e a vários níveis — como Cruella De Vil.

O próprio nome indica estarmos perante uma “criatura” capaz de emprestar pleonasmo ao conceito de antagonismo e, no que toca a vilões, apresenta todo os seus traços habituais: o penteado de um louco, compleição quase inumana, vícios (nomeadamente, o cigarro na ponta de uma boquilha), gargalhada infame e a discutível apetência por casacos feitos a partir da pele de adoráveis cachorrinhos dálmatas.

Mas Cruella é uma vilã particular pelos subtextos que não são imediatamente destacados na sua caracterização, numa provável estreia dos argumentistas da Disney em apelar à consciência social do espectador. A saber, uma tremenda e deliciosa condenação à sociedade consumista dos anos 60, através de uma figura que, a certa altura, parece protagonizar uma campanha publicitária a favor dos casacos de pele: «My only true love, darling. I live for furs. I worship furs! After all, is there a woman in all this wretched world who doesn’t?». Cruella De Vil é, portanto, mais do que a antagonista com um plano diabólico a ser executado pelos seus ineptos empregados que ela agride constantemente; é a extrema caricatura do ideal (bastante mundano, por sinal) de parecer que nunca temos tudo o que precisamos.


No geral, é de lamentar que 101 DÁLMATAS não tenha investido mais tempo neste e noutros conceitos. Afinal de contas, não existe “universo” mais simples e puro que o reino animal. E, por acaso, o filme até é narrado por um dálmata…


Obrigado, Samuel, por teres aceite o convite!
E vocês, que pensam da Cruella? E do filme em si?


sábado, 30 de julho de 2011

A Morte da 7ª Arte (Epílogo)


A Morte Morreu

A reprodução do salmão é fantástica. Os pais fertilizam os ovos espalhando esperma por toda a água em seu redor, as mães ficam à espera, ambos morrem e são comidos pelas crias. O salmão é hiper-moderno porque, além de renovar, recicla as gerações. Os salmões não tentam ser como os pais porque os conhecem mas porque são biologicamente comandados a tal. Acho que a conclusão da história é por de mais evidente, se já leram as restantes mortes já a descobriram de certo. Não fica mal dizer, mesmo assim, que sendo nós pessoas de memória e não forçados, como o salmão, a reduzir a renovação de gerações a uma inutilidade teórica, que dizer o que já foi dito e fazer o que já foi feito é no mínimo gozar com o coitado do salmão. E eu até gosto de salmão, mesmo que seja um peixe gordo, porque eu não discrimino pela aparência. É a personalidade que conta, não o exterior, tal como nos filmes, ser atractivo ao olhar e ter efeitos especiais derivados da maquilhagem e do guarda-roupa não contam para nada.


Sentindo eu agora a necessidade de dizer alguma coisa que não confie apenas no poder da extensa ironia, vou fazer um pequeno apontamento de uma ideia que é sempre muito simples de perceber mas muito difícil de se pensar. Se alguém gostar de um filme não tem de pensar, qual rainha matemática, que o filme é bom. Este pequeno raciocínio que muito nos acompanha vem da simples falácia que é pensar que a nossa realidade se aproxima mais da verdade que a dos outros e que, por isso, o que nós gostamos é o que é realmente bom. Os agraciados são aqueles que gostam do que é bom. E como sabemos nós o que é bom ou mau? Nada mais do que esta pergunta assola tudo o que fala e portanto critica. É uma pergunta difícil de responder mas tem resposta. A resposta está em todas as páginas da humanidade, reside nas pessoas que são génios, e para as distinguirmos melhor devemos recuar um pouco, para nos afastarmos invariavelmente dos imbecis que os odeiam e rodeiam e que eventualmente desaparecem, não por não existirem mas porque já não é um tema actual o suficiente para ser discordado porque já faz parte de um dogma. Falarei então de Miguel de Cervantes, o autor do suposto primeiro romance moderno, inventor do conceito do anti-herói e, pessoalmente falando, progenitor de quase todos os artifícios de escrita hoje usados pelos grandes escritores, mas isso seria objecto de uma grande tese. Falando agora das novas gerações, os que mais se aproximam de Dom Quixote são invariavelmente os mais expeditos na arte, falando só do anti-herói, já foi usado por Gogol e Dovstoievski, por Flaubert, por Flannery O’Connor e Tom Wolfe, por Oscar Wilde, por Salman Rushdie e basicamente quase todo e qualquer romance que tenha ficado na história. Fazendo o exercício oposto, encontra os livros onde os heróis ainda são pessoas não-humanas como os de Dan Brown ou outros muitos que fazem com que ler já não seja um exercício de deleite mas um passatempo vazio. Passando à música, hoje em dia vê-se que o grande experimentalismo musical vem sempre do Jazz e que eventualmente todos aqueles que são os grandes músicos mais cedo ou mais tarde se aproximam do Jazz, na sua música e na sua maneira de ser. O improviso, a não obsessão com a composição e o aperfeiçoamento do som mas sim com o conteúdo. Todos os grandes músicos de Jazz hoje em dia se aproximam eventualmente de Miles Davis, homem que já foi muito odiado e até teve o descaramento de ir a concertos do Prince, mas digo-vos que se fosse para ouvir a “My Name Is Prince” ou a “Sexy Mother Fucker” também eu ia. Partindo para o cinema existe também um denominador comum aos grandes filmes, que reside na insistência de transmitir algo para além de uma simples história. Só na conjugação desta premissa com a grande fotografia e as grandes sequências é que se pode ter um grande filme. Os outros que são apenas parte serão sempre menores, e já exaustivamente enchi os meus textos de explicações para este facto.


Com todos estes sentidos conjuntos de palavras quero dizer que a genialidade se aproxima eventualmente uma à outra. Não é difícil encontrar os génios, aqueles que têm uma legião de idiotas contra e se afastam sempre dos cânones. Que nunca se conformam com o que já existe e procuram algo mais acima disso, assim é a evolução do pensamento. Não confundam, eu não quero dizer que são todos iguais, mas a matriz de que partem, os princípios básicos que os regem são os mesmos e as ideias que os acompanham têm também tendência para se aproximar, mas são na sua proximidade de uma diversidade imensurável. Não é portanto um padrão mas a negação à natureza de que o conhecimento é inútil. Eu admiro tudo o que transpire inteligência, o meu gosto sobre as coisas vai sempre contra quase todos, mas a minha reflexão sobre elas é compreensível, e pretendo com isto demonstrar o que para mim é evidente. O meu gosto coincide exactamente com esta busca, que é uma grande parte de mim próprio, defendo-a porque a considero correcta. Como é de conhecimento geral, algo fundamentado é verdade até prova em contrário e, como é contrário ao que normalmente se diz, tudo o que é arte é debatível e definido em melhor e pior independentemente do gosto de cada um. Para mim esta ideia é evidente, para vocês pode ser a maior estupidez ou ser incompreensível, para o mundo nem sequer interessa.


PS: A morte morreu mas volta para Outubro, talvez renovada e em novo formato. Este foi apenas um bom truque de propaganda.

Axel Ferreira.

Festivais: TIFF (Toronto) e Biennale (Veneza)


Para ajudar a limpar o paladar de tanto artigo sobre animação, decidi oferecer a minha opinião sobre a lista dos filmes a competição nos dois festivais que mais aprecio, a Biennale de Veneza e o Festival de Toronto (TIFF).


Como eu gosto da época de festivais. O primeiro local de passagem dos grandes candidatos aos Óscares, salvo algumas (raras - e cada vez mais o são) excepções. Local de destruição de sonhos, de construção de campanhas, de origem de algumas das mais bem sucedidas Oscar stories dos últimos anos. Veneza foi onde Colin Firth, em 2009, começou, de forma algo surpreendente, a sua corrida a Melhor Actor por "A Single Man". Em 2010 foi em Toronto e Telluride que o mesmo viria a repetir esta mesma campanha, desta feita sorrindo a ele a sorte no final. Foi em Veneza o ano passado também que Natalie Portman iniciou a sua trajectória de sucesso. A Biennale premiou apenas Mila Kunis mas "Black Swan" viria a conquistar o mundo, conquistando oito nomeações. Toronto é habitualmente lugar onde os filmes independentes dão à costa. "Juno" e "Little Miss Sunshine" foram destaques em 2007 e 2006, respectivamente, levando as audiências ao rubro - e obviamente a Academia também. Já Veneza é mais local de prestígio para desfile de estrelas e de grandes realizadores. E este ano, uma vez mais, não é excepção - cada um apresenta um pouco do mesmo de outros anos, numa tentativa de agradar tanto a quem os visita pela mostra cinematográfica, como quem se desloca aí para ver as estrelas e como quem só quer passar um bom bocado dentro de uma sala de cinema. Vejamos a programação de cada.

VENEZA

 
O Festival de Veneza é o primeiro a abrir, a 31 de Agosto, estendendo-se até 10 de Setembro, três dias após a abertura do Festival de Toronto. Pelo meio ainda há Telluride. Veneza abre com um filme carregado de estrelas: o thriller político "The Ides of March", realizado por George Clooney, que deverá garantir sala esgotada e público ao rubro para aplaudir Clooney, Gosling, Seymour Hoffman, Tomei, Giammati e Wood. A constelação de estrelas deve continuar com a estreia de "Contagion", que trará Steven Soderbergh, Matt Damon, Kate Winslet, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow a Itália. Os outros três grandes títulos do ano que Veneza vai estrear são, indubitavelmente, três grandes pontos de interrogação. "Carnage", de Roman Polanski, conta com Kate Winslet, Jodie Foster, John C. Reilly e Christoph Waltz no elenco, o que, em teoria, seria garantia de sucesso. A ver vamos. "A Dangerous Method" é o primeiro filme prestige de David Cronenberg e conta com Michael Fassbender, Keira Knightley e Viggo Mortensen nos principais papéis. Contudo, Cronenberg já avisou que não é para todos os gostos e que é um trabalho bem experimental. O que só me excita mais, embora acredito que para a Academia a reacção seja oposta. Finalmente, teremos ainda um ar de sua graça com "Tinker, Taylor, Soldier, Spy" de Thomas Alfredson ("Let the Right One In"), que poderá trazer a Gary Oldman o seu primeiro Óscar - e, dizem as primeiras críticas, a Colin Firth o seu segundo.

 
Outros filmes que me suscitam grande interesse são o novo projecto de Yorgos Lanthimos ("Dogtooth"), intitulado "Alps"; a nova incursão de Madonna pela sétima arte, na forma de "W. E."; o novo trabalho de Satrapi e Paronnaud, "Chicken with Plums", responsáveis pela maravilhosa "Persepolis"; o novo filme do grande Steve McQueen, "Shame", que o reúne com Michael Fassbender depois de "Hunger"; e a surpreendente Andrea Arnold que, depois de "Fish Tank", se propôs a adaptar "Wuthering Heights" para os tempos modernos.

O resto das estreias mundiais de Veneza são um misto de grandes autores - Alexander Sukurov ("Faust"), Abel Ferrara ("Last Day on Earth"), William Fredkin ("Killer Joe"), Todd Solondz ("Dark Horse"), Mary Harron ("The Moth Diaries") e Jonathan Demme ("I'm Caroline Parker: The Good, the Mad and the Beautiful") - ilustres quase-desconhecidos como Chantel Akerman ("La Folie Almayer"), Philippe Garrel ("A Burning Hot Summer"), Eran Korilin ("The Exchange"), Ami Canaan Mann ("Texas Killing Fields"), Wei Te-Sheng ("Seediq Bale"), Sion Sono ("Himizu") e realizadores italianos como Cristina Comencini ("Quando La Notte"), Gipi ("L'ultimo Terrestre") e Emanuele Crialese ("Terraferma"). E James Franco ainda arranja tempo no meio de tanto projecto para realizar "Sal".

De notar ainda a presença de duas películas portuguesas nas secções fora de competição: a longa-metragem "Cisne" de Teresa Villaverde e a meia-metragem "Palácios da Pena", de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, ambos na secção Horizontes.

O festival é encerrado por "A Damsell in Distress" de Stillman. Podem consultar o programa na íntegra AQUI.



TORONTO



O Festival de Toronto, por sua vez, abre a 8 de Setembro. Muito mais habituado que o seu congénere italiano a ser um autêntico íman para estreias mundiais e norte-americanas dos grandes candidatos aos Óscares (a par com o seu companheiro do Colorado, o Telluride Film Festival, que começa dias antes), o Festival de Toronto gera, de facto, muito maior apetência só pelo potencial (em bruto) da sua programação. Este ano é ainda melhor do que o ano passado em termos de estreias e fará, sem dúvida, as delícias de quem se deslocar a território canadiano.


Toronto decidiu abrir as hostes em modo low profile, com "From the Sky Down", um documentário de David Guggenheim sobre os U2, embora tenha em "Moneyball" de Bennett Miller, que conta com Brad Pitt, Jonah Hill e Philip Seymour Hoffman o seu título de maior peso. Contudo, o grande aperitivo do festival, pelo menos a meu ver, é o novo filme de Alexander Payne, "The Descendants", protagonizado por George Clooney. A última vez que Payne realizou um filme - e o estreou em Toronto e Telluride - foi "Sideways" e toda a gente sabe como isso acabou, por isso a expectativa sobre este "The Descendants" é enorme.



Toronto vai ser também o palco da primeira ronda da batalha hercúlea entre Meryl Streep e Glenn Close pelo troféu de Melhor Actriz, com a estreia mundial de "Albert Nobbs". Visto que "The Iron Lady" não deverá surgir em nenhum festival até ao seu dia de estreia norte-americana nos cinemas, Glenn Close poderá aqui ganhar uma preciosa vantagem junto da crítica e gerar buzz importante que a impulsione para a frente da corrida. Entre as restantes estreias mundiais temos os novos projectos de dois enormes realizadores ("Twixt" de Francis Ford Coppola e "The Lady" de Luc Besson), "Take This Waltz" de Sarah Polley, "The Eye of the Storm" de Fred Schepisi e "The Deep Blue Sea" de Terrence Davies à procura de compradores, bem como o novo filme de Fernando Meirelles, "360", que busca redenção após o falhanço de "Blindness". Entre os filmes com enorme buzz que esperam tirar partido de Toronto encontramos "50/50" de Jonathan Levine com Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick e Anjelica Huston, "A Better Life" de Cédric Khan, "Jeff Who Lives at Home" dos irmãos Duplass, "Machine Gun Preacher" de Marc Forster, "Rampart" de Oren Moverman, o brilhante realizador por detrás de "The Messenger", "Salmon Fishing in the Yemen" do amigo da Academia Lasse Hallstrom ("Chocolat", "Cider House Rules"), "Ten Year" de Jamie Linden, "Friends with Kids" de Jessica Westfeldt, "Tyrannosaur" de Paddy Considine, "Burning Man" de Jonathan Teplitzky e o novo filme de Michael Winterbottom ("A Mighty Heart"), "Trishna". Surpreendentemente, a adaptação de Shakespeare por parte de Roland Emmerich, "Anonymous", também arranjou colocação na programação de Toronto.


Como de costume, Toronto também reúne a grande maioria das estreias mundiais de Cannes e Veneza para a sua estreia norte-americana, bem como alguns títulos presentes em Sundance e em Berlim nos festivais do primeiro trimestre de 2011. Assim, "A Dangerous Method", "Chicken with Plums", "Dark Horse", "The Ides of March", "Shame", "W. E." e "Killer Joe" farão a sua estreia em território norte-americano após surgirem no Festival de Veneza.

"Drive" de Winding Refn, "Habemus Papam" (o novo filme de Nanni Moretti que surpreendentemente não surge na programação do festival italiano), "The Artist" de Hazanavicius, "The Woman in the Fifth" de Pawlikowski, "Melancholia" de Lars von Trier, "La Piel Que Habito" de Pedro Almodovar e "We Need to Talk About Kevin" de Lynne Ramsay também reaparecem no circuito de festivais após serem aplaudidos em Cannes.


Ralph Fiennes vem trazer o seu "Coriolanus" a Toronto depois de o fazer estrear em Berlim, juntando-se ainda aos três nomes mais sonantes a sair de Sundance: "Like Crazy", "Martha Marcy May Marlene" e "Take Shelter", que procurarão começar as suas campanhas para Felicity Jones, Elizabeth Olsen e John Hawkes e Michael Shannon e Jessica Chastain, respectivamente.





Para quem quiser consultar a programação completa de Toronto, sugiro que dê uma vista de olhos AQUI.




E a vocês, que vos parecem os Festivais deste ano?

Especial Animação: O Cinema Numa Cena de THE LION KING

A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Estando a semana terminar, falta-nos dedicar alguns artigos a esse grande estúdio de animação e aos fantásticos filmes que nos proporcionaram. 

Como sabem já, "O Cinema Numa Cena" tenta mostrar uma cena fora-de-série que englobe algo que nos extasie, que nos fascine e que nos faça amar ainda mais o filme. Há duas cenas em particular em filmes da Disney que gostaria especialmente de abordar. Esta é a primeira.


Seja pela magnanimidade da situação, pela perfeita união de música, desenho e poderio visual ou pela beleza da paisagem e da dedicação ao detalhe, esta cena de "The Lion King" é icónica. Uma cena que transcende o ecrã, um momento único de cinema, uma experiência fortíssima e tudo isto logo a abrir um filme. Que o filme pegue neste prólogo fabuloso e construa a partir daí - nunca perdendo a qualidade que este início portentoso estabelece - diz muito do nível desta animação da Disney. O ponto alto da nova vaga da Disney (a Disney Renaissance), "The Lion King" pode não ter sido nomeado para Melhor Filme como "Beauty & the Beast"; contudo, é sem dúvida o filme mais indelével e irreverente da história dos estúdios de Walt Disney.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

Especial Animação: A beleza de BEAUTY AND THE BEAST (20º Aniversário)

Peço desculpa por isto andar com menos publicações nos últimos dois dias mas a minha Internet tem sofrido alguns problemas e, com isso, não tenho conseguido agendar publicações. Espero que a situação se normalize hoje. De qualquer forma, avante com os especiais animação!

Nesta semana especial, que abre o mês de festividades, pedimos a amigos próximos e colaboradores de outros blogues que nos ajudassem a abordar um dos nossos temas preferidos: a animação. Todos eles foram limitados a um máximo de dez imagens ou um vídeo para a sua tarefa. Sete dias, sete colaboradores, sete títulos que festejam este ano o início de uma nova década de vida. Muita diversão, emoção e magia é prometida. A ver se cumprimos. A nossa quarta convidada, por quem nutro especial apreço, como ela sabe, é a Ana Alexandre (também do Split-Screen), que nos vem falar de um dos mais lindos contos de fadas de sempre: BEAUTY AND THE BEAST, que comemora 20 anos a 22 de Novembro. Deixo-vos então com as suas palavras:




A minha relação com este filme é um pouco diferente da habitual: durante vários anos, o acesso que tive a esta versão da estória consistia na BD, pelo que todas as cenas me ficaram na cabeça quase por imagens fixas e não pelas cenas em si. Contudo, este Natal ofereceram-me a edição diamante e pude ver finalmente o filme. Agora, uns anos mais velha, acabei por ter um olhar bem diferente do que teria tido e acabei por analisar mais o filme em contexto.

Para os que não sabem, este é o terceiro filme da fase Disney Renaissance, o regresso da Disney a produções de grande sucesso e foi também o primeiro filme de animação a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme. Feitas as apresentações teóricas a este texto, passemos então àquilo que realmente interessa, o filme em si.

Primeiro que tudo, há que referir o pormenor de que mais gostei neste filme (e chamem-me feminista se quiserem): Belle. Pela primeira vez num filme Disney vemos a personagem principal a fazer algo além de cair adormecida e esperar pelo príncipe encantado. Além deste pormenor, há que referir o facto de ela ser provavelmente a "Princesa Disney" mais inteligente de todas e a única ligada a livros. Uma das imagens de que me recordo mais facilmente ao pensar no filme/BD é a alegria de Bella quando vai à biblioteca buscar um livro e o entrega do topo da escada. A outra, obviamente, é a da enorme biblioteca no castelo. Para uma crominha dos livros como eu, aquilo é praticamente pornografia.

Entretanto, como não podia deixar de ser, tenho também de falar da cena de dança, provavelmente a mais bonita de todos os filmes Disney que vi até hoje (cuja conta deve andar à volta dos 50-60). Acho que nenhuma cena é tão mágica, tão cumpridora do "o que conta é a beleza interior", porque por momentos não se consegue sequer ver que está uma rapariga a dançar com uma criatura monstruosa, mas sim duas pessoas apaixonadas. É um culminar de todo um crescendo nesse sentido, cuja minha cena preferida é aquela em que estão a comer juntos e onde o monstro faz um esforço enorme por parecer civilizado e tenta comer com a colher.







Uma outra cena que me marcou foi quando a Belle descobre a rosa, o facto de ser tão irónico que a fraqueza do monstro seja uma rosa, bem como a reacção do monstro ao descobrir que ela sabia da existência da rosa. É impressionante como o filme consegue ser tão simbólico, conter tanta realidade representada iconicamente.



Chega também a altura da parte menos boa, de Gaston e uma turba enfurecida pelo preconceito e estupidez. Gaston já por si é detestável, mas após conseguir convencer toda uma multidão a fazer o seu trabalho sujo apenas porque se sente ofendido torna-se pior ainda. A verdadeira personificação do ódio e ganância.



Por fim, e para terminar bem... a cena final. Poucas palavras são necessárias para a descrever, não só a cena entre ambos, mas também toda a transformação do pessoal da casa, especialmente de Mrs. Potts e do filho.


É impossível para mim considerar que alguém que veja o filme não goste dele. É tudo aquilo que se espera de um filme de animação para crianças: bonito, bem feito, com todo um conceito moral por trás e acima de tudo, mágico. É o verdadeiro espírito dos filmes Disney tornado filme.


Obrigado por teres aceite o convite, Ana! 
E em vocês, que sentimentos desperta este conto de fadas imortal?


NOTA: Deixo cá ficar AQUI o link para o meu próprio texto sobre o filme, da minha participação na rubrica do The Film Experience, "Hit Me With Your Best Shot".


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Especial Animação: HOW TO TRAIN YOUR DRAGON (2010)


Há filmes especiais. Há filmes que parecem surgir na tua vida em determinada altura por pura circunstância do acaso mas que, no entanto, parece mais trabalho do destino. Este "HOW TO TRAIN YOUR DRAGON" é um deles. E agora vou ter que contar isto para vos pôr dentro do contexto: Recentemente adquiri um gato. Eu, que sempre gostei de animais mas nunca me havia aventurado a tomar realmente conta de um. E desde que o tenho que me apaixonei perdidamente pelo bicho. De tal modo que imaginar agora a minha vida sem ele põe-me logo num semblante triste. É por isto que a narrativa e a mensagem deste filme me dizem tanto. Porque na verdade quando olho para Toothless vejo o meu gato. E vai-me ser impossível ver o filme com outros olhos, não importa quantos milhares de vezes eu repita essa visualização.


Além desta circunstância feliz, "HOW TO TRAIN YOUR DRAGON" marca também a primeira incursão da Dreamworks em territórios e temas mais sérios, mais adultos, como a perda da inocência com o fim da infância e a entrada na adolescência, como a perda de um amigo e como a capacidade de sobrevivência. Coincidência ou não, é hoje o filme mais criticamente aclamado e aplaudido da Dreamworks, a milhas dos dólares que a franchise "Shrek" fez entrar nos cofres da empresa de Steven Spielberg mas, para compensar, uns bons furos acima, em qualidade, do velho ogre verde.


O filme narra a história de Hiccup, um jovem guerreiro viking, caçador de dragões aprendiz, que dá de caras com um dragão ferido, o perigoso Nightfury, que ele passa a chamar por Toothless e com quem forja uma improvável e poderosa amizade que irá expor a cada um deles o mundo do outro por outros olhos. Através dele, Hiccup começa a perceber que os dragões não são os seres maquiavélicos e demónicos que o seu povo considera, mas sim animais inteligentes, afáveis e até carinhosos, se tratados de forma respeitosa. Juntos, terão que ser eles a força que faz a diferença e mudar a mentalidade do povo viking para quem os dragões são pouco mais do que objecto de caça. 


Uma das razões pela qual "HOW TO TRAIN YOUR DRAGON" resulta tão bem reside na inventiva animação do dragão Toothless. Com maneirismos próprios do nosso gato ou cão de estimação, com movimentos majestosos e com um aspecto a princípio ameaçador mas em seguida dócil e fofinho, Toothless é, sem dúvida, o primeiro motivo pelo qual nos apaixonamos pelo filme. A segunda razão é o facto da narrativa premiar Hiccup pela sua atitude gentil e amigável perante os dragões. Poucos protagonistas de histórias de acção são tão corajosos quanto bondosos, tão bravos quanto sensíveis. Ele não é atlético - é forte mentalmente. Ele é um pacifista - só se envolvendo na guerra entre vikings e dragões porque é obrigado. A sua relação com o seu dragão é das mais comoventes que eu já vi na grande tela - no fim de contas, ele é um rapaz que ama o seu animal e tudo faz por ele. Quem não se iria identificar com isso? Um pequeno milagre, este argumento de DeBlois e de Sanders. O terceiro motivo - e talvez o mais importante para que tanta criança goste do filme - são as épicas, mágicas e intensas sequências de voo e cenas de acção, do mais alto quilate em termos de animação. A Dreamworks finalmente mostra alguma evolução a este nível, com a fotografia - sob supervisão de Roger Deakins - a ser um dos pontos altos do filme. E um dos poucos filmes que posso dizer que faz bom uso do 3D.


O quarto ponto alto é a prodigiosa banda sonora de John Powell. Confesso que pouco conhecia da carreira deste compositor em Hollywood, tendo-me forçado depois de ver o filme a escutar outras bandas sonoras da sua autoria e a concluir o óbvio: apesar de ele ter trabalhos muito bem conseguidos antes, nunca atingiu o nível de brilhantismo e consistência, durante um filme inteiro, como o fez aqui. A banda sonora é entusiasmante, eleva-nos o espírito, alegra-nos ou entristece-nos em meros segundos. É absolutamente brilhante - e imensamente merecido que tenha recebido a nomeação para o Óscar. De resto, só uma pequena palavra para o elenco - e que elenco! Jay Baruchel encaixa na perfeição no corpo e no tom de Hiccup, Kristen Wiig e TJ Miller são hilariantes como os gémeos Ruffnut e Tuffnut, America Ferrera dá um toque de classe a Astrid, Jonah Hill e Christopher Mintz-Plasse, como de costume, providenciam a comédia física e mesmo Craig Ferguson e Gerard Butler destacam-se positivamente pela desinibição em aparvalhar um pouco as suas personalidades mais sérias.

De qualquer forma... Faz-me feliz que a Dreamworks tenha finalmente encontrado um filme no qual tudo aquilo que faz de positivo realmente ajuda a dar uma cor e um toque diferente a uma história invulgar e que tenha conseguido juntar um grupo imenso de gente de qualidade em torno do projecto. Não, não é tão bom como alguns Pixar - ainda assim... quão errado pode ser amar tanto um filme assim, querer abraçá-lo e jamais largar? Quero um Toothless só para mim - e isso, meus caros, diz tudo. Este filme não é perfeito, longe disso até. Mas era o filme que eu precisava na altura em que ele me surgiu e, por isso, nunca hei-de esquecer as emoções que vivenciei no dia em que o vi. "Toy Story 3" pode ser a história de sucesso do ano em termos de animação; contudo, para mim, o ano trará sempre a memória de como aprendi a treinar o "meu" dragão.

Nota: 
A-

Ficha Técnica:
Ano: 2010
Realizador: Dean DeBlois, Chris Sanders
Argumento: Dean DeBlois, Chris Sanders, William Davies
Banda Sonora: John Powell
Elenco (vozes): Jay Baruchel, Gerard Butler, America Ferrera, Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse, TJ Miller, Kristen Wiig, Craig Ferguson, David Tennant, Ashley Jensen



ÚLTIMA HORA: Trailer e Poster de THE IDES OF MARCH




Um dos grandes candidatos aos Óscares deste ano e pronto para abrir o Festival de Veneza (passando depois pelo TIFF e por Telluride), "THE IDES OF MARCH" é realizado por George Clooney (que realizou anteriormente o criticamente aclamado "Good Night and Good Luck") e conta com um elenco impressionante - Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Evan Rachel Wood e Paul Giamatti. Baseado na peça de teatro "Farragut North", que por sua vez havia sido baseada nas primárias da corrida presidencial de Howard Dean em 2004, "The Ides of March" vê o idealista Steven Myers (Gosling) ter de enfrentar o melhor e o pior quando a sua vida pessoal e a sua vida profissional colidem, enquanto ele navega as águas tempestuosas de uma campanha política quando descobre que o seu candidato, o Governador Mike Morris (Clooney), não é assim tão inocente.





Um trailer que promete e - sobretudo - mais um filme que vem contribuir para que este ano seja realmente o Ano do Gosling ("Crazy, Stupid Love"; "Drive"; "The Ides of March").

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Especial Animação: A diversão em SHREK (10º Aniversário)


Nesta semana especial, que abre o mês de festividades, pedimos a amigos próximos e colaboradores de outros blogues que nos ajudassem a abordar um dos nossos temas preferidos: a animação. Todos eles foram limitados a um máximo de dez imagens ou um vídeo para a sua tarefa. Sete dias, sete colaboradores, sete títulos que festejam este ano o início de uma nova década de vida. Muita diversão, emoção e magia é prometida. A ver se cumprimos. O nosso terceiro convidado é, além de grande cinéfilo, um grande amigo cá da casa - e com muita pena lhe calhou uma tarefa ingrata, uma vez que o filme em questão hoje não é, de todo, um dos seus favoritos: SHREK, que festejou 10 anos de vida no passado mês de Maio. Passo a palavra ao Tiago Ramos (Split-Screen):


"We can stay up late, swapping manly stories, and in the morning, I'm making waffles!"
 

Qual é que preferem? A princesa abusada mentalmente, a princesa que apesar de viver com sete outros homens não se vende facilmente ou finalmente a princesa ruiva trancada num castelo guardado por um dragão?






"Welcome to Duloc, such a perfect town / Here we have some rules, let us lay them down: / Don't make waves, stay in line / And we'll get along fine / Duloc is a perfect place
Please keep off of the grass / Shine your shoes, wipe your... FACE! / Duloc is, Duloc is / Duloc is a perfect... place!"




 
"Huh, celebrity marriages. They never last, do they?"










A tarefa de falar sobre SHREK não é pacífica para mim. Este é provavelmente um dos filmes de animação que eu menos gosto de sempre, não compreendendo sequer todo o hype relacionado com o mesmo ou as suas sequelas. Compreendo muito menos o Óscar que ganhou como Melhor Filme de Animação, num ano em que existia um outro candidato bem melhor e mais simples: "Monsters, Inc." da Pixar. Aliás, a reputação da DreamWorks como grande estúdio de animação cresceu e formou-se com "Shrek", o que para mim foi um prenúncio de que algo ali estava mal. Não que não existam filmes melhores do estúdio, mas à grande maioria deles falta-lhes chama e realismo. E o único que realmente considero um grande filme é o "How To Train Your Dragon".

"Shrek" é um dos títulos mais grotescos de sempre da história da animação, cheia de humor escatológico, brejeiro e ridículo. Por mais que tentem passar a mensagem que o que interessa é a beleza interior, não consigo deixar de ver apenas uma criatura grosseira e que nada traz de bom para os espectadores (sejam eles crianças ou adultos), mesmo sendo um ogre. De valor apenas algumas das personagens secundárias, especialmente as vindas dos contos, como o Pinóquio ou os Três Porquinhos, ou ainda o Gingerman; bem como a banda sonora do filme repleta de hits.

Confesso que me foi difícil escolher cenas que gostasse realmente no filme, pelo que a última é a que realmente prova o que penso do filme.
 
Lamento ter-te feito passar pelo suplício de ver um filme que não gostas, Tiago! Para a próxima compenso-te - e obrigado por teres aceite o convite!

E agora vocês: partilham da opinião do Tiago sobre o Shrek e sobre a Dreamworks no geral?
 

Especial Animação: Sondagem - Studio Ghibli


A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.

Para encerrar definitivamente o dia dedicado aos estúdios Ghibli, pensei que seria interessante questionar os nossos visitantes sobre o quão familiarizados estão com os estúdios de animação nipónicos, uma vez que a maior parte das pessoas desconhece a existência de grande parte dos filmes do estúdio, conhecendo porventura um ou outro título de Miyazaki, mas pouco mais. Aqui ficam então as duas perguntas...

Resta-me só avisar que incluo o "Nausicaä of the Valley of the Wind" mesmo sabendo que ele antecede a existência do Studio Ghibli, sobretudo porque muita gente o considera dentro das produções dos estúdios e até porque para muitos foi esse o início do estúdio.



E já agora, a título de curiosidade...


Obrigado pela participação!

Especial Animação: Personagens do Cinema - Totoro

A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.


Uma das personagens mais inesquecíveis, o espírito Totoro, do filme "My Neighbor Totoro" de Hayao Miyazaki, veio a tornar-se um dos seres animados mais adorados pelo mundo inteiro (a ponto de no Japão se fazer fortunas com a merchandising baseada no tão popular ser) e seguramente isso não se deverá apenas ao seu aspecto redondo e fofinho - tipo peluche - mas também à sua enorme e contagiante alegria, ao seu grande carisma e à forma enternecedora como estabelece amizade com as duas crianças.

O contributo das palavras cheias de inteligência e elegância de Miyazaki também é grande no estabelecimento de Totoro como um animal de estimação, um companheiro de sonho. "My Neighbor Totoro" é uma viagem excitante à nossa infância, onde a magia, a emoção, a aventura e, claro, a imaginação à solta estavam sempre presentes, onde fantasmas, dragões, fadas, bruxas, feiticeiros, todos ganhavam vida. Totoro é a representação da inocência, da pureza e deste olhar diferente sobre a vida que todos temos escondido dentro de nós. E todos estes sentimentos e características estão mais do que nunca presentes no ente que Totoro personifica. 

 
Mágico, admirável, inocente e afável, contudo esquecendo a sua mais que profunda humanidade, Totoro é das personagens mais queridas de sempre do mundo do cinema, uma das maiores e melhores fantasias infantis para sempre capturadas em filme. Quem nunca viu não sabe o que perde. "My Neighbor Totoro" é uma viagem alucinante ao melhor e mais primitivo de nós. São duas horas que vale a pena perder à procura do senso de nostalgia inerente de situações evocativas da nossa infância, do nosso passado que já lá vai. E o melhor é que para voltarmos a este mundo perdido no tempo basta só reintroduzirmos o DVD e deixarmo-nos levar. Outra vez. Totoro está à nossa espera.


Especial Animação: GRAVE OF THE FIREFLIES (1988)



Poucos filmes vi eu na minha vida tão profunda e humanamente depressivos como este. E poucos filmes vi eu também com uma mensagem social anti-guerra tão vincada quanto realista.  Um dos primeiros filmes dos nipónicos Studio Ghibli, lançado no Japão a par com o decididamente mais alegre "My Neighbour Totoro" de Miyazaki, como forma de contrabalancear com o seu pesado dramatismo, "Grave of the Fireflies" é a obra definidora de Isao Takahata e, mais que tudo, é o filme que abriu novos horizontes no que é possível fazer com a animação contemporânea (abrindo caminhos para que filmes como "The Lion King", "Princess Mononoke", "The Iron Giant", "Toy Story", "Up!", entre outros, tenham podido abordar temas mais sérios, considerados antes impróprios em filmes para crianças).


"Grave of the Fireflies", baseado no romance semi-autobiográfico com o mesmo nome de Akiyuki Nosaka, conta uma história relativamente simples e directa de sobrevivência e persistência, relatando a história de dois irmãos, Seita e Setsuko, órfãos de pai e mãe, vítimas dos ataques americanos à população de Kobe durante a II Guerra Mundial. A história é contada em analepse, começando no momento em que Seita perece de fome e malnutrição. O empregado de limpeza da estação de comboio atira fora uma lata de rebuçados de cai das mãos de Seita, que continha cinzas e pequenos ossos. Deles surge o espírito de Seita e de Setsuko e uma nuvem de pirilampos e é a partir daqui que a narrativa retrocede no tempo, para nos dar a conhecer a sua história.


Não querendo adiantar grandes pormenores da história, Seita e Setsuko vêem-se privados da sua mãe quando esta é uma das vítimas de um ataque aéreo por avionetas americanas à região, falecendo dias depois por queimaduras múltiplas. Uma vez que o seu pai se encontra na Marinha, são deixados ao cuidado da sua tia. Esta tia é uma das personagens mais curiosas de todo o filme, uma vez que é através da mudança comportamental dela que Takahata nos permite ver como a sociedade, no geral, iria reagir a uma situação de crise, de fome, de pobreza, de guerra. A tia, outrora alegre e contagiante, vai ficando mais triste, com o sorriso cada vez mais cerrado e vai implicando cada vez mais com os dois sobrinhos que adoptou, até ao ponto de praticamente os expulsar de casa. Seita e Setsuko abandonam a casa da tia e improvisam um lar num abrigo anti-bomba abandonado. No entanto, aquilo que seria uma solução alegre para ambos os problemas torna-se um problema em si mesmo, quando as crianças, a passar cada vez mais fome e a ter de recorrer a meios cada vez mais desesperados para conseguir subsistir, descobrem que Setsuko está doente e que, com o final da guerra, o seu pai teria feito parte de um dos navios afundados. 


Extremamente gráfico e com um poder emocional de nos arrancar as entranhas e abraçar o coração, "Grave of the Fireflies" não é para todos. Trágico, deprimente e desprovido de qualquer sentimento positivo, é na sua mensagem anti-guerra que reside a sua riqueza. Ao retratar de forma tão dura, realista e pessimista as consequências negativas da guerra para a sociedade, o filme não procura ser sentimentalista ou melodramático - pretende, isso sim, mostrar as coisas como elas são. A realidade raramente é simpática. Este é um filme sobre a guerra, sobre a fome e a pobreza, sobre a sociedade e sobre a humanidade, que por acaso calhou ser animado. É um filme que não puxa pelas lágrimas; somos compelidos a jorrá-las, tal é a intensidade dramática do que testemunhamos no ecrã.

O filme perde tempo em alguns momentos soberbos, de uma beleza inqualificável, vitais para nos obrigar a reflectir e a meditar, para nos apaixonarmos pelas personagens e temermos pelo seu futuro, para sermos apanhados de surpresa pelo fim pesaroso e percebermos que é, afinal, aquele o fim de muitas famílias apanhadas em território de guerra.


E a relação tão bem caracterizada e estabelecida dos dois irmãos é, para mim, o grande ponto forte e força motriz do filme. A forma como Seita é repetidamente colocado à prova e a sua reacção difere em várias alturas durante o filme é sublime, além de que é verdadeiramente enternecedor - e, sabendo do final, absolutamente avassalador - ver como os dois se são bem e ver a forma como Seita protege Setsuko da realidade alinhando nas brincadeiras e criando uma espécie de mundo à parte só para ela, onde nada lhes acontece e onde tudo fica bem. Não tenho vergonha em admitir que foi um dos filmes que mais vontade me deu de chorar. Lágrimas de luto, de quem tem o seu coração partido pelo que vê suceder sem poder fazer nada. "Grave of the Fireflies" promete ser uma experiência emocional poderosa que vos vai perseguir para sempre. E é por isso, acima de tudo, que eu aconselho toda a gente a vê-lo. Vale a pena - mesmo que depois disso não consigam alegrar-se com nada por umas horas.

Deixo-vos ficar abaixo com o tema final da banda sonora.



Nota:
A

Ficha Técnica:
Ano: 1988
Realizador: Isao Takahata


terça-feira, 26 de julho de 2011

Especial Animação: Pessoas da Década - Hayao Miyazaki

A acompanhar os sete artigos dos nossos convidados para a nossa Semana de Apreciação à Animação, vamos ter outros artigos especiais dedicados ao tema, que se debruçarão sobre diversos componentes que fazem da animação dos géneros mais excitantes do cinema contemporâneo. Hoje é um dia dedicado aos Estúdios Ghibli, da rica animação japonesa e, como tal, vamos ter alguns artigos dedicados aos fantásticos filmes que nos proporcionaram.

Aproveitando a coincidência de hoje ser terça-feira, ressuscitamos uma rubrica adormecida do blogue - que vai voltar a total funcionamento nas próximas semanas: a das Pessoas da Década. Nesta rubrica, como se lembram, discutimos as grande personalidades cinematográficas que se fizeram, que se valorizaram ou que se excederam nesta década passada, sejam actores, realizadores, compositores, fotógrafos, entre outros.


Era fácil imaginar qual a Pessoa da Década em foco, ainda por cima se tivermos a pista de estar relacionado com os estúdios Ghibli. Um homem que é parte indelével dos estúdios que ajudou a fundar, um homem com uma carreira de trinta anos de actividade, um homem que revolucionou a animação japonesa e que inventou novas formas de contar histórias através da animação, um homem que merecidamente venceu o Óscar em 2003 pelo filme já hoje abordado, "Spirited Away". É óbvio que o homem de que falamos é...



Hayao Miyazaki


Hayao Miyazaki, por muitos considerado o "Walt Disney do Japão", teve a sua primeira grande oportunidade quando conseguiu arranjar trabalho nos estúdios de animação Toei, nos anos 60. Aí trabalhou durante quase vinte anos tendo subido na hierarquia dos estúdios, tendo finalmente realizado o seu primeiro filme em 1979, "Lupin III". Com o moderado sucesso deste filme, Miyazaki conseguiu financiar o seu segundo projecto, uma ambiciosa história que eventualmente seria produzida em 1984, nos primórdios daquilo que seria o Studio Ghibli, intitulada "Nausicaä of the Valley of the Wind".
 

A sua grande amizade com Isao Takahata fez então com que ambos se lançassem na criação do seu próprio estúdio de animação e assim nasceu, em 1985, o Studio Ghibli. O primeiro filme produzido pelo Studio Ghibli foi de Miyazaki - "Castle in the Sky". Este filme, que é ainda hoje um dos filmes mais apreciados de sempre dos estúdios japoneses, marcou uma nova era na forma como se fazia animação na altura. "Grave of the Fireflies", de Takahata, lançado dois anos depois, veio só confirmar o que se previa: que estes dois senhores estavam cá para ficar.


A admiração internacional, contudo, só viria a chegar depois de 1997, quando os irmãos Weinstein adquiriram, através da sua subsidiária na Disney, os direitos de distribuição de "Princess Mononoke", o quinto filme de Miyazaki nos estúdios nipónicos (depois de "Castle in the Sky" viria "My Neighbour Totoro", "Kiki's Delivery Service" - o primeiro filme do Studio Ghibli lançado nos Estados Unidos, debaixo do acordo com a Disney - e "Porco Rosso") e que tinha sido um sucesso estrondoso, a ponto de se tornar, na altura, no filme mais rentável de sempre no Japão.


E assim entramos na década passada. Depois de um curto período de reforma, no qual Miyazaki decidiu ingressar para se focar mais na família, ele retorna ao Studio Ghibli com uma ideia tão original quanto bizarra - a de uma menina que vive num mundo espiritual e mágico no qual tem de aprender a sobreviver sozinha. Dessa ideia inicial brotou "Spirited Away", aquele que é, indiscutivelmente, o filme mais admirado de Miyazaki e da história dos estúdios. O filme, que venceu o Urso de Ouro em Berlim, viria a conseguir a qualificação para o Óscar de Melhor Filme Animado (por não ter cumprido o período de elegibilidade em 2001), que viria merecidamente a vencer. Retém, ainda hoje, uma impressionante nota de 94 no Metacritic e um resultado fabuloso de 97% no Rotten Tomatoes. Um filme propositadamente mais escuro e tenebroso, menos alegre e esperançoso e muito mais introspectivo e reflexivo, que representa a passagem da infância para a adolescência e que contém um comentário social muito vincado, "Spirited Away" é imperdível para qualquer pessoa (faz inclusive parte da lista do BFI dos "filmes que uma criança deve ver até perfazer 14 anos").


Apesar do facto de só o ter realizado "Spirited Away" esta década ser suficientemente merecedor para receber uma menção nesta lista, Miyazaki não parou por aqui e ainda nos presenteou mais duas vezes esta década com dois grandes filmes: em 2004 trouxe-nos o mágico e emocionante "Howl's Moving Castle", sobre uma rapariga transformada em bruxa, também nomeado para Óscar em 2005 e em 2008 o alegre e aventureiro "Ponyo", uma história baseada no conto original de Hans Christian Andersen da Pequena Sereia. Estes três títulos de enorme valor, a juntar a uma carreira brilhante, faz, portanto, com que Miyazaki seja de facto uma presença obrigatória na nossa lista de pessoas da década. 


Um génio, um visionário, uma lenda, Miyazaki será sempre alguém que não pára de inovar e surpreender naquilo que faz. Quase sozinho tornou a casa de animação japonesa numa força poderosa, capaz de lutar taco-a-taco com os dois grandes estúdios americanos e até de lhes vencer ocasionalmente. Mas mais do que isso, a animação de Miyazaki pauta-se pelos temas que aborda, pela forma como constrói a narrativa, pela forma rica e detalhada como caracteriza as suas personagens. As suas histórias não são só para crianças - e é isso, acima de tudo, que o faz estar anos-luz à frente das suas congéneres norte-americanas (que só recentemente se começaram a aperceber disso; por alguma razão Lasseter, Stanton e Docter são fãs de Miyazaki e do seu trabalho - também por aqui se explica parte do sucesso da Pixar).


[Disclaimer: Não detemos os direitos de nenhuma das fotos].